FGTS para ter um filho? Juíza autoriza saque para pagar fertilização in vitro
O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) sempre foi associado a demissões, financiamentos habitacionais e momentos de crise. Contudo, uma decisão inédita da Justiça Federal no Rio Grande do Norte ampliou esse horizonte ao autorizar o saque para custear fertilização in vitro. O caso envolveu um homem que buscava, junto com a esposa, a chance de realizar o sonho da paternidade, diante da infertilidade comprovada do casal.
A juíza Madja Moura, da 11ª Vara Federal de Assú, entendeu que a liberação do FGTS em situações excepcionais pode ser autorizada. Segundo a magistrada, negar esse direito seria ignorar princípios constitucionais fundamentais, como a dignidade da pessoa humana, o direito à saúde e o planejamento familiar. Assim, o fundo, tradicionalmente usado em cenários econômicos, foi transformado em um instrumento de esperança.
O pedido havia sido negado administrativamente pela Caixa Econômica Federal, sob a justificativa de que não havia previsão legal para esse tipo de saque. No entanto, a Justiça reconheceu que a ausência de regra expressa não pode ser utilizada para impedir a efetivação de direitos. O precedente abre caminho para que outras famílias em situações semelhantes busquem amparo no Judiciário.

O reconhecimento da dignidade e do planejamento familiar
O casal anexou exames médicos que comprovavam a infertilidade, além de parecer técnico atestando que a fertilização in vitro era a única alternativa viável para gerar uma gestação. A juíza, ao analisar as provas, citou decisões anteriores do Superior Tribunal de Justiça que admitem movimentações do FGTS em hipóteses excepcionais, desde que justas e fundamentadas.
A decisão vai além de uma questão financeira, pois toca diretamente no direito ao livre planejamento familiar, previsto no artigo 226 da Constituição Federal. A magistrada destacou que a Lei 9.263/1996 regulamenta esse direito e garante o acesso a métodos e técnicas de concepção aceitos pela ciência. Nesse contexto, a fertilização in vitro se insere como uma possibilidade legítima, que deve ser disponibilizada às famílias.
O caráter inovador da sentença está em mostrar que o FGTS pode ser utilizado como ferramenta de inclusão social e promoção de direitos fundamentais. Em vez de restringir seu uso apenas a cenários econômicos, a Justiça abriu a porta para que ele também cumpra um papel humano, auxiliando casais a realizar o sonho da parentalidade.
O impacto para futuros pedidos semelhantes
A repercussão da decisão pode ser significativa para outros casais brasileiros. O alto custo da fertilização in vitro é um dos principais obstáculos para quem depende desse procedimento. Muitos planos de saúde não cobrem a técnica, e poucas famílias conseguem arcar com as despesas sem comprometer o orçamento. Nesse cenário, o FGTS aparece como um recurso acessível e legítimo.
Especialistas em direito de família avaliam que a sentença cria um precedente valioso, ainda que cada caso precise ser analisado individualmente. A expectativa é que novas ações judiciais sejam movidas em todo o país, ampliando a interpretação do uso do FGTS e fortalecendo o reconhecimento da saúde reprodutiva como direito fundamental.
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Para além do campo jurídico, a decisão representa uma vitória emocional. Transformar um fundo financeiro em fonte de vida é um gesto simbólico que traduz a evolução do Judiciário diante das novas demandas sociais. O FGTS, antes restrito a momentos de perda ou investimento, agora também pode ser lembrado como o alicerce do início de novas famílias.
