Dor de cabeça frequente pode indicar doença incapacitante, alerta neurologista do HDT-UFNT
Celebrado em 19 de maio, o Dia Nacional de Combate à Cefaleia busca conscientizar a população sobre os riscos das dores de cabeça frequentes, além de alertar para os perigos da automedicação e a importância do diagnóstico correto. A data também reforça a necessidade de prevenção e acompanhamento médico adequado para os diferentes tipos da condição.
Segundo a Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), existem mais de 300 tipos de cefaleias. Elas se dividem entre cefaleias primárias, quando a dor representa a própria doença, e cefaleias secundárias, nas quais outras condições provocam a dor, como doenças vasculares, infecciosas, traumáticas, tumorais e metabólicas.

De acordo com o neurologista e especialista em dor Felipe Dias, do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT/HU Brasil), a cefaleia corresponde a qualquer dor localizada na região da cabeça. Além disso, ele destaca que o paciente precisa procurar avaliação médica diante de sinais de alerta ou quando as crises provocam limitações na rotina.
“O acompanhamento especializado é indispensável, principalmente porque a cefaleia está entre as maiores causas de incapacidade na população economicamente ativa. Uma das formas de perceber a gravidade do quadro aparece quando o paciente precisa usar analgésicos mais de dois dias por semana. Esse padrão pode indicar descompensação clínica, aumentar o risco de cronificação da dor e dificultar o tratamento”, explica o médico.
Cefaleia não deve ser ignorada
Felipe Dias ressalta que a enxaqueca, também chamada de migrânea, está entre as principais causas de incapacidade no mundo. Conforme o especialista, o problema afasta trabalhadores de suas atividades por mais dias do que muitas doenças crônicas, especialmente pessoas entre 25 e 55 anos.
Além disso, ele chama atenção para os riscos da automedicação. Segundo o neurologista, o uso frequente de analgésicos representa uma das principais causas reversíveis de cefaleia crônica diária. Pacientes que utilizam medicamentos entre 10 e 15 dias por mês podem desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação.
“O quadro costuma melhorar apenas após a redução gradual do uso desses medicamentos”, alerta.
Por outro lado, o especialista destaca os avanços nos tratamentos disponíveis atualmente. De acordo com Felipe, hoje existem medicamentos desenvolvidos especificamente para atuar nos mecanismos da enxaqueca, proporcionando maior eficácia e menos efeitos colaterais.
Fatores que desencadeiam crises
Entre os principais fatores associados às cefaleias primárias tensionais estão sedentarismo, estresse e erros posturais. Já na enxaqueca, diversos gatilhos podem provocar crises, como privação de sono, jejum prolongado, desidratação e alterações hormonais.
Além disso, alguns alimentos também podem atuar como desencadeantes em pessoas suscetíveis. Entre eles estão vinho, queijos, melancia e embutidos. Estímulos sensoriais intensos, como luzes fortes e odores, assim como mudanças climáticas, também aparecem entre os fatores relacionados às crises.
O neurologista ainda explica que pacientes com cefaleia em salvas, considerada rara e extremamente dolorosa, apresentam gatilhos específicos durante os períodos ativos da doença, principalmente ingestão de álcool, histamina e compostos com nitroglicerina.
Medidas preventivas ajudam no controle da doença
Quando as dores se tornam frequentes ou comprometem a qualidade de vida, o tratamento preventivo passa a ser recomendado. Nesse sentido, Felipe Dias afirma que as medidas não farmacológicas desempenham papel fundamental no controle da doença.
Entre as recomendações estão prática regular de atividade física, alimentação equilibrada, hidratação adequada, cuidados com o sono e correção de hábitos posturais inadequados. Além disso, técnicas como fisioterapia, terapia cognitivo-comportamental, relaxamento, biofeedback e acupuntura também podem auxiliar no tratamento.
Em alguns casos, entretanto, o uso de medicamentos preventivos se torna necessário. Conforme o especialista, os médicos costumam indicar a profilaxia farmacológica quando o paciente apresenta pelo menos três ou quatro dias de cefaleia intensa por mês, crises incapacitantes ou falha das medicações utilizadas para interromper a dor.
“O tratamento varia conforme o tipo de cefaleia e as características individuais de cada paciente. Atualmente, existem opções modernas, como toxina botulínica e anticorpos monoclonais, especialmente para casos de enxaqueca”, afirma.
Diagnóstico correto evita agravamento
Apesar de representar a queixa neurológica mais comum, a cefaleia ainda permanece entre as condições mais subdiagnosticadas. Segundo Felipe Dias, um dos erros mais comuns consiste em considerar qualquer dor de cabeça como enxaqueca, sem investigação adequada.
O neurologista alerta que algumas cefaleias secundárias podem indicar doenças graves, como meningite e hemorragia subaracnóidea. Por isso, o diagnóstico correto é essencial para definir o tratamento adequado e evitar complicações.
Além disso, ele reforça que o uso indiscriminado de analgésicos pode agravar o problema, transformando crises ocasionais em dores crônicas e dificultando o controle da doença.
A enxaqueca afeta cerca de 15% da população mundial e apresenta maior incidência entre pessoas de 25 a 50 anos, especialmente mulheres, devido à influência hormonal. Já a cefaleia tensional, considerada a mais frequente, costuma surgir por volta dos 30 anos. Em contrapartida, a cefaleia em salvas atinge mais homens, geralmente entre 20 e 40 anos.
Por fim, Felipe destaca a importância da adoção de hábitos saudáveis e do acompanhamento dos sintomas. Segundo ele, manter um diário da cefaleia pode ajudar tanto o paciente quanto o médico a identificar gatilhos, avaliar a resposta ao tratamento e aumentar a precisão do diagnóstico.
