Governo avalia proibir antimicrobianos para tentar destravar exportações de carne à União Europeia
O governo federal avalia proibir o uso de antimicrobianos na pecuária brasileira como parte das negociações para retomar as exportações de carne à União Europeia. A proposta divide frigoríficos e pecuaristas por causa dos possíveis impactos econômicos e produtivos.
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O governo federal estuda proibir o uso de antimicrobianos na cadeia pecuária brasileira. Segundo informações divulgadas, a medida faz parte das negociações para tentar recolocar o Brasil na lista de países autorizados a exportar carnes para a União Europeia (UE).
Além disso, o tema passou a integrar a agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A discussão ganhou força após representantes da indústria frigorífica defenderem mudanças para atender às exigências sanitárias do bloco europeu.
União Europeia suspendeu exportações brasileiras
Em maio, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países aptos a exportar produtos de origem animal ao bloco. De acordo com as autoridades europeias, o país não comprovou o controle do uso de antimicrobianos durante todo o ciclo de vida dos animais destinados à exportação.
As substâncias são utilizadas em medicamentos veterinários e também como melhoradores de desempenho alimentar.
Desde então, o Ministério da Agricultura intensificou as negociações com representantes da União Europeia. No entanto, as conversas ainda não resultaram em um acordo.
Governo busca alternativa para retomar mercado europeu
No início deste mês, o Ministério da Agricultura adotou novos procedimentos de fiscalização para atender às exigências europeias. Entre as medidas, está o acompanhamento do ciclo completo de vida dos animais e a comprovação da ausência do uso de antimicrobianos.
Esse modelo já funciona em segmentos como a avicultura. Isso porque o ciclo de produção das aves é mais curto e permite maior controle da cadeia produtiva.
Por outro lado, a situação da pecuária bovina apresenta desafios maiores. O acompanhamento completo de um bovino pode levar mais de dois anos, além de envolver diferentes propriedades rurais durante o processo de criação.
Proposta divide frigoríficos e pecuaristas
A possível proibição dos antimicrobianos recebe apoio de parte da indústria frigorífica e de integrantes do governo. Segundo esse grupo, a medida demonstraria compromisso do Brasil com as exigências da União Europeia e poderia facilitar a negociação de um período de transição.
Em contrapartida, produtores rurais e entidades do setor avaliam que a proibição não garante a retomada das exportações e pode elevar significativamente os custos de produção.
Entre as preocupações está o possível veto à monensina, produto utilizado para melhorar a eficiência alimentar do rebanho. Além disso, a substância ajuda os animais a atingirem o peso ideal em menor tempo.
Segundo cálculos apresentados por técnicos do setor ao Valor Econômico, a retirada da monensina poderia gerar um custo adicional de aproximadamente R$ 2 bilhões para a cadeia produtiva da bovinocultura de corte.
Setor teme impactos no mercado chinês
Os pecuaristas também alertam para possíveis reflexos nas exportações destinadas à China.
O mercado chinês exige que os bovinos abatidos tenham, no máximo, 30 meses de idade. Nesse contexto, a retirada da monensina poderia dificultar o alcance desse padrão, já que produtos substitutos apresentam custo mais elevado e oferta mais limitada.
A China representa atualmente o principal destino da carne bovina brasileira. Somente em 2025, o país importou quase 1,7 milhão de toneladas do produto brasileiro, gerando receita de US$ 8,8 bilhões.
Já a União Europeia importou cerca de 128 mil toneladas de carne bovina do Brasil no mesmo período, movimentando aproximadamente US$ 1 bilhão.
Negociações continuam
O governo pretende avançar nas negociações ainda neste mês. Isso porque agosto costuma ser período de férias na Europa, o que pode reduzir o ritmo das tratativas.
Na última semana, o ministro da Agricultura, André de Paula, e o secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, apresentaram ao presidente Lula um panorama das negociações. Até o momento, porém, o governo ainda não tomou uma decisão definitiva sobre a proibição.
Enquanto isso, entidades representativas dos pecuaristas mantêm posição contrária à proposta. Em nota conjunta divulgada recentemente, 14 associações afirmaram ser inadequado transformar exigências comerciais de um mercado específico em obrigação para toda a pecuária brasileira.
Assim, o debate segue aberto e envolve interesses comerciais, exigências sanitárias internacionais e os impactos econômicos para um dos principais setores do agronegócio nacional.
