Óleo de palma pode triplicar área de cultivo no Brasil com avanço dos biocombustíveis

O setor de óleo de palma no Brasil aposta na expansão da produção para atender aos mercados de biocombustíveis e alimentos. Representantes da cadeia produtiva defendem mais crédito, melhorias logísticas e previsibilidade regulatória para impulsionar o crescimento sustentável da atividade.
A cadeia produtiva do óleo de palma no Brasil pretende ampliar sua participação no agronegócio nacional com foco no mercado de biocombustíveis. Além disso, o setor busca aumentar a oferta da matéria-prima para atender à indústria de alimentos e reduzir a dependência das importações.
Segundo levantamento da Associação Brasileira de Produtores de Palma (Abrapalma), o país possui atualmente 283 mil hectares cultivados e produz cerca de 700 mil toneladas de óleo de palma por ano. Ainda assim, o mercado brasileiro importa aproximadamente 300 mil toneladas anuais, o que, de acordo com a entidade, demonstra espaço para ampliar a produção nacional.
“O setor cresceu muito desde a pandemia, em quase 30% em cinco anos, saindo de 220 mil hectares para 283 mil. Grande parte disso graças à agricultura familiar”, afirmou o presidente da Abrapalma, Victor Almeida, em entrevista à CNN Agro News.
Agricultura familiar impulsiona crescimento
Atualmente, a produção brasileira está concentrada no Pará, onde cerca de 40 municípios cultivam palma, principalmente na região nordeste do estado.
Além disso, pequenos produtores já atuam em 34 desses municípios. Eles ocupam 39,1 mil hectares e respondem por 22,39% da produção nacional, enquanto grandes empresas concentram o processamento e a logística.
Segundo Victor Almeida, existe potencial para triplicar a área cultivada em até dez anos. Para isso, o setor defende políticas públicas que incentivem novos investimentos e ampliem o acesso ao financiamento.
Expansão prioriza áreas degradadas
A palma é considerada uma das culturas agrícolas mais produtivas do mundo. De acordo com a Abrapalma, a lavoura pode produzir até 25 toneladas de cachos de frutos frescos por hectare ao ano e manter produtividade por até 30 anos.
Além da alta produtividade, o cultivo brasileiro segue o Zoneamento Agroecológico da Palma de Óleo, que direciona a expansão para áreas degradadas e impede o desmatamento de vegetação nativa.
Dessa forma, representantes do setor defendem que a atividade pode contribuir para a recuperação ambiental e fortalecer a bioeconomia na Amazônia.
Biocombustíveis ampliam perspectivas
O avanço do mercado de combustíveis de baixa emissão aparece como uma das principais oportunidades para a cadeia produtiva.
Atualmente, cerca de 10% da produção nacional abastece a fabricação de biodiesel em duas unidades instaladas no Pará.
No entanto, a Abrapalma avalia que a produção de diesel verde (HVO) e combustível sustentável de aviação (SAF) poderá ampliar significativamente a demanda pelo óleo de palma nos próximos anos.
Segundo a entidade, esse mercado apresenta potencial muito superior ao segmento de alimentos, o que poderá estimular novos investimentos na cultura.
Cadeia pode beneficiar milhares de famílias
Conforme estudo da Fundação Solidaridad citado pela Abrapalma, a expansão sustentável da atividade poderá dobrar a área plantada e beneficiar até 25 mil famílias.
Além disso, muitos produtores adotam sistemas consorciados com culturas como açaí, cacau, cupuaçu e graviola, estratégia que diversifica a produção e amplia a geração de renda.
Nesse sentido, o setor avalia que o modelo fortalece as economias locais e reduz a dependência de grandes grupos empresariais.
Setor aponta desafios para crescer
Apesar das perspectivas positivas, a cadeia produtiva enfrenta obstáculos.
Entre os principais desafios, a Abrapalma cita a descontinuidade de políticas de incentivo e a isenção do imposto de importação concedida para parte do óleo de palma refinado importado, principalmente da Indonésia.
Segundo Victor Almeida, essa medida reduz a competitividade da produção nacional e afeta agricultores e indústrias brasileiras.
“Estamos tirando renda não só dos agricultores, mas da indústria brasileira”, afirmou.
Além disso, o presidente da entidade destacou que a logística também representa um entrave. Como a produção se concentra na Região Norte e o consumo ocorre principalmente no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, transportar o produto dentro do Brasil pode custar mais do que importar óleo de outros países.
Crédito e investimentos são apontados como prioridade
Outro ponto levantado pelo setor envolve o acesso ao crédito rural.
A Abrapalma considera que o limite de financiamento do Pronaf Bioeconomia ainda restringe a expansão das pequenas propriedades.
Por isso, representantes da cadeia produtiva defendem linhas de crédito de longo prazo para ampliar os investimentos.
Segundo Victor Almeida, triplicar a área cultivada para cerca de 900 mil hectares exigirá investimentos próximos de R$ 18 bilhões.
Por fim, o presidente da Abrapalma destacou que o crescimento da cultura poderá gerar empregos, fortalecer a agricultura familiar e ampliar a diversificação do agronegócio brasileiro, sem competir diretamente com outras culturas, como a soja.
