Queimadas na Amazônia elevam internações e podem causar milhares de mortes, revela estudo

Pesquisa reúne quase quatro décadas de estudos e alerta para impactos das queimadas na saúde em todo o Brasil
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As queimadas na Amazônia provocam impactos que vão muito além da destruição ambiental. Um estudo publicado na revista Acta Amazonica mostra que, nos dias de incêndios mais intensos, as internações por doenças respiratórias aumentam 23% em todo o Brasil. Além disso, os casos relacionados a doenças cardiovasculares crescem 21%.
Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) reuniram dados de 108 estudos científicos publicados entre 1986 e 2023. Ao todo, eles identificaram 41 consequências para a saúde relacionadas ao desmatamento e às queimadas na Amazônia.
Fumaça afeta cidades distantes da Amazônia
Segundo os pesquisadores, a fumaça gerada pelos incêndios não permanece apenas na região amazônica. Pelo contrário, ela percorre milhares de quilômetros e alcança grandes centros urbanos em diferentes estados brasileiros e até outros países da América do Sul.
Por isso, os efeitos das queimadas aparecem em locais muito distantes da origem do fogo, aumentando a procura por atendimento médico e sobrecarregando os sistemas de saúde.
Região Norte registra impactos ainda maiores
Embora o problema seja nacional, a Região Norte concentra os maiores índices de internações.
De acordo com o levantamento, nos dias mais críticos de fumaça, as hospitalizações por doenças respiratórias aumentam 38%. Ao mesmo tempo, as internações por problemas cardiovasculares crescem 27%.
Além disso, crianças menores de quatro anos e idosos aparecem entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos da poluição.
Poluição também eleva número de mortes
O estudo estima que, durante a temporada de queimadas de 2019, aproximadamente cinco mil mortes prematuras ocorreram devido à exposição à fumaça dos incêndios na Amazônia.
Além disso, os pesquisadores calculam que o cumprimento das metas nacionais de redução do desmatamento poderia ter evitado cerca de 2,3 mil mortes relacionadas à poluição do ar apenas em 2020.
Por outro lado, uma redução de 40% no desmatamento evitaria aproximadamente 1.060 mortes prematuras por ano em toda a América do Sul.
Material particulado representa maior risco
Os pesquisadores destacam que o principal poluente presente na fumaça das queimadas é o chamado MP2,5, formado por partículas extremamente pequenas que conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea.
A Organização Mundial da Saúde recomenda concentração máxima de 5 microgramas por metro cúbico. Entretanto, durante grandes incêndios, cidades da Amazônia já registraram níveis superiores a 150 microgramas por metro cúbico.
Estudo aponta falhas nas políticas públicas
Além dos impactos na saúde, os pesquisadores identificaram problemas na prevenção e no combate às queimadas.
Entre os principais desafios estão:
- fiscalização insuficiente dos órgãos ambientais;
- falta de integração entre governos federal, estaduais e municipais;
- monitoramento limitado dos impactos na saúde;
- ações predominantemente reativas, em vez de preventivas;
- redução de recursos destinados ao combate aos incêndios;
- comunicação insuficiente sobre os riscos da qualidade do ar;
- ausência de políticas específicas para proteger crianças, idosos, indígenas e comunidades vulneráveis.
Segundo os autores, reduzir o desmatamento e prevenir as queimadas gera benefícios diretos para a saúde pública. Além disso, essas medidas diminuem internações, reduzem mortes prematuras e melhoram a qualidade do ar em todo o país.
