O Cenipa concluiu a investigação sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP). O relatório aponta falhas da companhia aérea, da tripulação e da fiscalização da Anac, além de indicar mudanças para aumentar a segurança operacional.
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apresentou, nesta quinta-feira (23), o relatório final sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024.
Segundo o documento, uma sequência de falhas operacionais, técnicas e de fiscalização contribuiu para o acidente. Além disso, a investigação apontou problemas relacionados à companhia aérea, aos pilotos e à atuação da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Ao todo, o relatório reúne 39 conclusões e traz recomendações para fabricantes, autoridades reguladoras e empresas do setor.
Gelo severo e falha técnica reduziram o desempenho da aeronave
De acordo com o Cenipa, o avião enfrentou condições severas de formação de gelo desde a subida. Depois, permaneceu nesse ambiente durante praticamente todo o voo.
Além disso, uma falha no sistema de degelo comprometeu a remoção de gelo da asa direita e reduziu o desempenho da aeronave.
O sistema de monitoramento emitiu pelo menos oito alertas de baixa velocidade e perda de performance. No entanto, os pilotos não seguiram os procedimentos de emergência previstos para a situação.
Ações da tripulação agravaram a perda de controle
O relatório também aponta que conversas sobre assuntos pessoais desviaram a atenção da tripulação durante o voo.
Em seguida, quando o avião entrou em estol, o copiloto executou uma manobra diferente da prevista nos manuais.
Em vez de empurrar o manche para recuperar a sustentação, ele puxou o comando. Com isso, a perda de controle se agravou.
A aeronave entrou em parafuso chato, girou cinco vezes sobre o próprio eixo e caiu a cerca de 14 mil pés por minuto, o equivalente a aproximadamente quatro quilômetros por minuto.
Investigação aponta falhas de manutenção em avião da Voepass
O Cenipa também identificou problemas na manutenção do ATR 72-500.
Segundo o relatório, a aeronave decolou com uma falha no sistema de degelo. Além disso, o problema não foi registrado no diário de bordo.
Por causa disso, os mecânicos não realizaram os reparos necessários antes do voo.
A investigação ainda concluiu que havia uma cultura de “normalização de desvios” na Voepass. Ou seja, pilotos e mecânicos deixavam de registrar algumas panes para manter as aeronaves em operação.
Avião da Voepass não deveria ter decolado
Durante a apresentação do relatório, o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, responsável pela investigação, informou que o avião apresentava dez falhas antes da decolagem.
Entre elas, havia um problema no limpador de para-brisa.
Segundo o investigador, esse defeito impedia o despacho da aeronave em horários com previsão de chuva, condição prevista para aquele voo.
Cenipa recomenda mudanças à ATR e à Anac
Após concluir a investigação, o Cenipa recomendou mudanças à fabricante ATR, por meio da autoridade europeia de aviação (EASA).
Entre as medidas, o órgão sugeriu revisar os alertas de desempenho, aperfeiçoar os procedimentos para voos em condições de gelo, ampliar os dados registrados pela caixa-preta e melhorar o sistema de monitoramento da aeronave.
Além disso, o Cenipa orientou a Anac a revisar checklists, fortalecer a comunicação entre aeronaves e equipes de solo, atualizar os processos de fiscalização e compartilhar as conclusões da investigação com as companhias aéreas.
Voepass diz que colaborou com as investigações
Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais difícil de sua história.
Ao mesmo tempo, a empresa declarou solidariedade às famílias das vítimas, informou que a tripulação era experiente e certificada e ressaltou que colaborou com o Cenipa durante toda a investigação.
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