Falso médico é descoberto após dizer que paciente sem vesícula tinha órgão saudável
Um detalhe médico impossível foi o que levou à descoberta de um falso profissional de saúde em Cananéia, no litoral de São Paulo. Um empresário identificado como Wellington acabou preso após afirmar, durante um exame de ultrassom, que uma paciente apresentava a vesícula em boas condições — mesmo ela tendo passado por cirurgia para retirada do órgão.
A declaração levantou suspeitas imediatas. A própria paciente desconfiou da situação e comunicou o diretor de Saúde do município, que acionou a Polícia Militar. O caso ocorreu na quarta-feira (7), na Unidade Básica de Saúde (UBS) do Centro, onde o homem se passava por médico utilizando o registro profissional (CRM) de um médico que é sócio de uma clínica na capital paulista.
De acordo com a Polícia Civil, o falso médico já vinha causando estranhamento em outros atendimentos. Pacientes relataram comentários incompatíveis com seus históricos clínicos. Em um dos casos, ele afirmou que um homem não apresentava gordura no fígado, apesar de o paciente estar em tratamento justamente para essa condição.
Ainda segundo os investigadores, diversos laudos emitidos por Wellington apresentavam indícios de serem padronizados, com trechos idênticos, levantando suspeitas de “copia e cola” de outros exames.
Prisão e investigação
Conforme o boletim de ocorrência, Wellington realizava exames de ultrassonografia com equipamentos próprios e se identificava como outro profissional. Durante a abordagem, a polícia apreendeu um carimbo médico, blocos de receituários de diferentes clínicas e documentos com cadastro do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) pertencentes a terceiros.
Em depoimento informal, o suspeito afirmou que receberia cerca de R$ 2 mil pelos serviços prestados. Ele foi autuado por exercício ilegal da medicina e falsidade ideológica, já que utilizava identidade profissional falsa para assinar laudos.
Após audiência de custódia, a Justiça converteu a prisão em flagrante em prisão preventiva. Wellington foi encaminhado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) de Registro.
A defesa do empresário, representada pelo advogado Celino Barbosa de Souza Netto, informou que irá recorrer da decisão judicial e que pretende comprovar a inocência do cliente ao longo do processo.
Posicionamento da prefeitura
Em nota oficial, a Prefeitura de Cananéia informou que o suspeito atuou na UBS por apenas um dia. Segundo a administração municipal, o médico verdadeiro foi contratado regularmente pela empresa responsável pela gestão da saúde no município, com toda a documentação exigida, incluindo CRM válido.
No entanto, outra pessoa compareceu à unidade no lugar do profissional contratado, apresentando documentos falsos tanto a servidores públicos quanto à autoridade policial.
A prefeitura afirmou que a fraude foi identificada rapidamente e que todas as medidas cabíveis já foram adotadas. Destacou ainda que, apesar de a ultrassonografia ser um exame considerado de baixo risco, sua realização por alguém sem habilitação legal configura uma grave infração ética e jurídica.
Todos os pacientes atendidos na terça-feira (6) estão sendo reconvocados para repetir os exames na próxima terça-feira, dia 13 de janeiro.
“A Prefeitura de Cananéia lamenta o ocorrido, pede desculpas à população e informa que foi instaurada sindicância administrativa, em conjunto com a empresa gestora, para apurar responsabilidades, identificar falhas e reforçar os mecanismos de controle e prevenção”, conclui a nota.
