Vídeo: Imagens mostram motoboy nu sendo baleado por PMs enquanto estava no banheiro durante operação policial
Era 30 de agosto de 2023 quando a vida do mototaxista Evandro Alves da Silva, de 45 anos, foi violentamente interrompida por tiros disparados por policiais militares enquanto ele usava o banheiro de um ponto de apoio no Morro José Menino, em Santos, litoral sul de São Paulo. Ele estava nu, sozinho no imóvel alugado para oferecer serviços de mototáxi quando foi surpreendido pela ação do 5º Batalhão de Ações Especiais da PM (Baep), no contexto da controversa Operação Escudo.
Mesmo baleado com tiros de calibre 12, Evandro conseguiu quebrar o vidro da pequena janela do banheiro e se jogou de uma altura de 7 metros nos fundos do imóvel, numa tentativa desesperada de sobreviver.
O que foi a Operação Escudo
A operação, realizada na Baixada Santista a partir de julho de 2023, foi desencadeada após a morte do policial militar Patrick Bastos Reis. Ao longo das ações, 28 pessoas morreram em alegados confrontos com a polícia. No entanto, a operação virou alvo de denúncias por parte de órgãos de direitos humanos, que relatam possíveis execuções, práticas de tortura e abordagens violentas por parte dos agentes.
A versão dos policiais e o que mostram as câmeras
Segundo depoimentos dos policiais envolvidos, eles estariam patrulhando a área quando avistaram suspeitos fugindo por uma viela. Afirmam ter perseguido os indivíduos até o imóvel onde Evandro supostamente estaria armado.
As imagens das câmeras corporais, no entanto, mostram uma cena completamente diferente. Evandro estava no banheiro, desarmado e sem roupas, quando recebeu ao menos seis disparos de fuzil e espingarda calibre 12. Mesmo ferido, pulou pela janela e caiu no quintal, onde continuou sendo alvo de hostilidade por parte dos agentes. Agonizando, ele clamava por socorro: “Pelo amor de Deus, chefe, me salva. Eu não sou bandido, estão me confundindo.”
Enquanto isso, um dos PMs colocava uma luva e revistava o corpo do motoboy à procura de armas — nenhuma foi encontrada com ele.
O resgate demorou cerca de meia hora para chegar. Evandro foi levado em estado grave à Santa Casa de Santos, onde ficou internado por 45 dias, sendo 23 deles em coma. Ele sofreu a perda do baço, teve parte do pulmão retirada, fraturou oito costelas e ainda carrega uma bala alojada no corpo.
Dois dias antes: uma abordagem que antecipou a tragédia
Evandro contou que, dois dias antes de ser baleado, já havia sido abordado por agentes do Baep. Ele e um colega cortavam panfletos quando foram surpreendidos por policiais encapuzados que invadiram o local e os colocaram contra a parede.
Os policiais queriam saber quem tinha passagem pela polícia. Evandro omitiu seu passado por medo de represálias. “Falei que só tinha uma passagem de quando era moleque. Eu não ia contar tudo, estava com medo de morrer”, revelou.
A suspeita dele é de que os policiais tenham consultado seus antecedentes e retornado ao local por isso.
Passado e tentativa de recomeço
Evandro foi condenado a 25 anos de prisão por participação como motorista em um sequestro-relâmpago ocorrido em 2001, que resultou em uma morte. Ele cumpriu 20 anos em regime fechado e o restante em regime aberto. Hoje é pai de três filhos e vive com a esposa, a advogada Anna Fernandes Marques, com quem está casado há mais de duas décadas.
“Quem ressocializou o Evandro fui eu e a nossa família, não o Estado. E agora o próprio Estado destrói o que venho reconstruindo há 25 anos. Hoje ele é pai de família. O passado ficou no passado”, afirma Anna.
A arma que levanta suspeitas
A Polícia Militar alegou ter encontrado uma pistola calibre 7,65 mm dentro do imóvel, e por isso Evandro foi indiciado por porte ilegal de arma. Mas imagens das câmeras corporais levantam dúvidas: às 10h58, só havia um casaco sobre a cama; dois minutos depois, a arma aparece no mesmo local. A defesa de Evandro argumenta que o armamento foi plantado.
“Se ele estivesse com uma arma, com aquela quantidade de tiros que deram, por que ele não revidou? A arma apareceu minutos depois onde antes não havia nada visível”, questiona a esposa e advogada.
Consequências físicas e emocionais
Dois anos após o episódio, Evandro vive com sequelas físicas graves e abalo psicológico profundo. Ele relata crises de pânico e dificuldade para respirar. “Se vejo uma viatura, evito passar perto. Entro em qualquer lugar. Não é medo, é trauma.”
O andamento do caso
Evandro foi indiciado por resistência e porte ilegal de arma, mas até hoje, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) não apresentou denúncia contra ele nem solicitou o arquivamento do caso. O episódio envolvendo o motoboy é o único entre os investigados na Operação Escudo que ainda aguarda um desfecho por parte do MP.
A Secretaria da Segurança Pública informou que o inquérito foi concluído e está sob análise do Judiciário para que sejam tomadas eventuais medidas contra os policiais envolvidos.
Já o Ministério Público, em nota, destacou que instaurou Procedimentos Investigatórios Criminais (PICs) independentes em todos os casos de mortes durante a Operação Escudo. Foram realizadas oitivas, análises de 330 vídeos (totalizando 166 horas), exames periciais e 167 interrogatórios, o que resultou em sete denúncias contra 13 policiais militares. No entanto, o órgão não se manifestou especificamente sobre o caso de Evandro nem indicou se pretende denunciá-lo ou arquivar o processo.
A Defensoria Pública de São Paulo, que acompanha o caso por meio do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos, defende que há elementos suficientes para oferecer denúncia contra os policiais por tentativa de homicídio. Caso o MP-SP opte por não apresentar a acusação, o órgão avalia adotar outras medidas.
