Exposição de crianças nas redes sociais reacende debate após caso envolvendo youtuber
O crescimento dos chamados influenciadores mirins acompanha a expansão do mercado digital. Vídeos fofos, engraçados ou de rotina atraem milhões de seguidores e movimentam contratos publicitários milionários. Porém, por trás da imagem aparentemente lúdica, especialistas alertam para riscos psicológicos e legais que não podem ser ignorados.
Em entrevista, uma psicóloga chama a atenção para a chamada adultização precoce.
“A adultização de menores de idade pode abrir portas para inúmeros problemas futuros, já que crianças e adolescentes estão em pleno processo de formação física, emocional e psicológica. Eles ainda estão construindo sua identidade, aprendendo a lidar com emoções, limites e relações”, explica.

Segundo ela, quando uma criança é exposta a conteúdos adultos ou responsabilidades que não correspondem à sua idade, os impactos podem ser graves.
“Entre as consequências estão a confusão na construção da identidade, a maior vulnerabilidade a abusos emocionais e sexuais, além da suscetibilidade ao adoecimento mental, baixa autoestima, dificuldade em estabelecer limites saudáveis e maior propensão a relacionamentos abusivos”, acrescenta.
A psicóloga também reforça que “queimar uma fase” — expressão usada na psicologia — significa justamente antecipar etapas do desenvolvimento. Isso pode resultar em ansiedade, depressão e dificuldades de socialização.
Outro ponto levantado pela especialista é a pressão por aprovação. “Muitas vezes a exposição digital não nasce da espontaneidade, mas da cobrança por curtidas e fama. A criança passa a associar seu valor ao número de seguidores, perdendo a capacidade de se divertir por si mesma”, destaca.
Para ela, a diferença entre diversão e exploração está na motivação:
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Diversão: espontânea, sem roteiro rígido, podendo ser interrompida a qualquer momento.
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Exploração: semelhante ao trabalho infantil, com metas, cobranças e obrigação de manter resultados — beneficiando principalmente a família e o mercado publicitário.
Questão jurídica e exploração infantil
Do ponto de vista jurídico, os riscos também são altos. O advogado Fillipe Matos, especialista em direito penal do escritório RCA Advogados, ressalta que os ganhos obtidos por influenciadores mirins deveriam ser integralmente destinados ao bem-estar da criança.
“No direito brasileiro, o menor de 16 anos é entendido como incapaz, então os pais se tornam administradores dos bens dos filhos. Porém, esse gerenciamento não é absoluto e deve sempre visar o benefício do menor. Desvios podem acarretar consequências legais”, explica.
Ele acrescenta que, dependendo da forma como é conduzida, a produção de conteúdo pode ser enquadrada como trabalho infantil.
“Tanto a Constituição quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente vedam expressamente qualquer trabalho para menores de 16 anos, salvo aprendiz. No digital, quando a atividade perde o caráter de lazer e passa a ser obrigação com fins de lucro, estamos diante de exploração”, afirma.
Falta de legislação específica
Outro entrave é a ausência de uma legislação clara. “Hoje não existe lei que regulamente contratos e o uso da imagem de crianças em redes sociais. Há projetos em discussão, mas ainda em estágio inicial. Isso cria uma zona de insegurança jurídica, ao mesmo tempo em que aumenta a necessidade de cautela por parte dos pais”, alerta o advogado.
