Aumento de AVC entre jovens acende alerta médico no Brasil
O AVC — o famoso “derrame” — deixou de ser um problema restrito à terceira idade e entrou no radar de quem ainda está distante dos 60 anos. Dados recentes mostram que a doença vem atingindo cada vez mais pessoas jovens, mudando rotinas inteiras de um dia para o outro e sobrecarregando centros de reabilitação em todo o país.
Karina Pires é um desses rostos que dão forma ao fenômeno. Aos 27 anos, ela sofreu um AVC que transformou movimentos simples — como caminhar, falar ou cozinhar — em desafios diários. Hoje, dois anos depois, ela segue firme na reabilitação e celebra as pequenas vitórias.
“Eu não falava nada. Agora estou falando e me expressando. É muito gratificante fazer as pequenas coisas”, diz Karina, enquanto cozinha no centro de reabilitação onde trata as sequelas.
Segundo especialistas, o AVC acontece quando um vaso que leva sangue ao cérebro entope ou se rompe, interrompendo o fluxo sanguíneo. O impacto pode ser devastador e, em muitos casos, fatal: só em 2024, foram mais de 62 mil mortes por AVC no Brasil. No caso de Karina, houve um alerta prévio — uma convulsão — resultado de uma má formação cerebral. Mas nem sempre o corpo avisa.
Os médicos têm observado um aumento expressivo de casos entre pessoas de 18 a 59 anos. Nas sete unidades da entidade que acompanha esses números, houve crescimento de 63% no atendimento a pacientes jovens nos primeiros nove meses de 2025 em comparação com o ano anterior.
Quando a causa não é uma má formação, o cardiologista César Jardim aponta o estilo de vida como um dos principais vilões.
“Uso de hormônios em excesso, drogas ilícitas estimulantes, substâncias estimulantes que nem são ilícitas, como derivados de cafeína em grandes doses”, explica o médico.
Além desses fatores, seguem os clássicos riscos que podem ser controlados:
- pressão alta;
- diabetes;
- colesterol alto;
- tabagismo;
- obesidade;
- sedentarismo.
A velocidade do atendimento é decisiva para o desfecho. Fraqueza repentina, tontura, dor de cabeça intensa, dormência ou dificuldade para falar são sinais que não podem ser ignorados. Antônio Carlos Fonseca, por exemplo, teve um desmaio antes de descobrir o AVC.
“Começou a ter dor de cabeça, subiu a pressão… A gente sabe que alguma coisa errada tem”, lembra ele.
Antônio passou dois meses na UTI e está há um ano na reabilitação, sentindo o progresso, mesmo que lento.
A tecnologia também tem entrado em cena para acelerar resultados. O médico fisiatra Marcelo Ares destaca o papel da chamada “terapia robótica”.
“Nela, conseguimos trabalhar movimento, atenção, coordenação, tempo de resposta… várias habilidades ao mesmo tempo. Claro que isso não substitui as terapias tradicionais, que continuam essenciais”, aponta.
Enquanto o país observa o avanço dos casos entre jovens, médicos reforçam a mensagem: AVC não tem idade, mas muitos dos riscos têm controle. E reconhecer os sinais cedo ainda é o maior divisor de águas entre sequelas leves, graves — ou a vida e a morte.
