Khaleda Zia, primeira mulher a chefiar o Executivo de Bangladesh, morre aos 80 anos
Khaleda Zia, que em 1991 se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira‑ministra de Bangladesh e manteve durante décadas uma acirrada rivalidade política com Sheikh Hasina, morreu na manhã desta terça‑feira na capital, Daca. Ela tinha 80 anos, informou o Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP).
Segundo comunicado do BNP, Khaleda Zia faleceu após longa enfermidade. Médicos que a acompanhavam relataram que a ex‑chefe do governo sofria de cirrose hepática avançada, artrite, diabetes e problemas cardíacos e pulmonares. No início de 2025, ela havia sido submetida a tratamento em Londres, onde permaneceu por cerca de quatro meses antes de regressar a Bangladesh.
Líder do principal partido de oposição de centro‑direita no país, Khaleda Zia comandou o BNP por décadas, mesmo tendo passado vários períodos fora do poder e sob regimes de prisão ou prisão domiciliar ao longo dos últimos anos. Seu setor político manteve amplo apoio popular e o BNP é apontado como favorito nas eleições parlamentares previstas para fevereiro. O filho de Khaleda, Tarique Rahman, presidente interino do partido e de 60 anos, retornou ao país na semana passada após quase 17 anos de autoexílio e é visto como potencial candidato a primeiro‑ministro.

A trajetória política de Khaleda está intimamente ligada à história recente de Bangladesh. Viúva do general e ex‑presidente Ziaur Rahman, assassinado em 1981, ela assumiu a liderança do BNP em 1984 e prometeu combater a pobreza e o atraso econômico. Em aliança inicial com Sheikh Hasina — filha do fundador do país —, participou do movimento popular que derrubou o regime militar de Hossain Mohammad Ershad em 1990. A partir dessa disputa emergiu a famosa “Batalha das Begums”, expressão que simbolizou a rivalidade prolongada entre as duas líderes.
Nas eleições de 1991, consideradas as primeiras livres do país, Khaleda obteve vitória sobre Hasina e instituiu a forma parlamentar de governo, transferindo amplos poderes ao cargo de primeiro‑ministro. Implementou políticas de abertura ao investimento estrangeiro e tornou o ensino fundamental obrigatório e gratuito. Perdeu para Hasina em 1996, mas retornou ao poder em 2001 com vitória expressiva. Seu segundo mandato enfrentou desafios, entre eles a ascensão de militantes islâmicos e denúncias de corrupção que marcaram o clima político da época.
O falecimento de Khaleda Zia ocorre em momento de intensa turbulência política no país: desde agosto de 2024, após uma revolta estudantil que provocou a destituição de Sheikh Hasina, Bangladesh é governado por um governo interino chefiado pelo laureado com o Nobel da Paz Muhammad Yunus. Em novembro, Hasina foi condenada à morte à revelia por sua repressão aos protestos estudantis, segundo decisões recentes.
Figura descrita por apoiadores como discreta, elegante e cautelosa nas palavras, Khaleda Zia deixa legado complexo, marcado por conquistas institucionais, alternâncias de poder e uma rivalidade que moldou a política bangladeshiana por mais de três décadas. As cerimônias fúnebres e comunicados oficiais sobre data de velório e sepultamento ainda não foram divulgados.
