Cresce o risco do uso indevido de “canetas emagrecedoras”: especialistas alertam para perigos e mercado ilegal
O uso não autorizado de medicamentos injetáveis para emagrecimento — conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” — tem gerado preocupação entre profissionais de saúde e autoridades. Relatos de usuários que adotam esses fármacos por motivos estéticos, sem indicação clínica nem acompanhamento médico adequado, apontam para riscos que vão desde efeitos adversos sérios até o deslocamento de produtos para o mercado ilegal.
A advogada carioca Gabriela, 40 anos, é um exemplo do fenômeno. Após tentar dietas rigorosas e treinos intensos que não trouxeram o resultado esperado, ela procurou alternativas e passou a utilizar Ozempic, adquirido em farmácia do Rio de Janeiro em fevereiro de 2024 sem receita e fora dos critérios aprovados para prescrição. Com 1,69 m e 76 kg, Gabriela tinha índice de massa corporal (IMC) de 26,6 ao iniciar o uso — faixa de leve sobrepeso que não a enquadrava nas indicações clássicas do medicamento. Ela relata perda de apetite e sensação de saciedade imediata, efeitos que a levaram a usar o produto de forma intermitente até o momento. “Quando me olho no espelho e gosto do que vejo, tudo na vida parece mais fácil”, disse.
Médicos e autoridades sanitárias, no entanto, alertam para os perigos da automedicação. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforça que esses medicamentos só podem ser comercializados mediante receita médica e devem ser prescritos conforme indicações clínicas aprovadas — geralmente para pacientes com obesidade (IMC ≥ 30) ou com IMC entre 27 e 30 associado a comorbidades relacionadas ao peso, como diabetes tipo 2, hipertensão ou doenças cardiovasculares. O uso sem supervisão pode causar complicações que variam de reações gastrointestinais e hipoglicemia a eventos mais graves.
O problema ganhou contornos criminais nesta quinta-feira (27), quando a Polícia Federal deflagrou uma operação contra uma quadrilha suspeita de fabricar e vender ilegalmente tirzepatida — princípio ativo do Mounjaro, com mecanismo de ação similar ao de outros agonistas de GLP-1 e efeitos sobre o hormônio GIP. Entre os alvos de busca e apreensão estava o médico Gabriel Almeida, de São Paulo, acusado de intermediar prescrições, angariar pacientes e promover a venda do produto por meio das redes sociais. A defesa do médico negou envolvimento em fabricação ou comercialização ilícita e afirmou que sua atuação com a substância é “estritamente científica e acadêmica”.
Especialistas destacam ainda que o IMC, apesar de ser um critério utilizado internacionalmente, tem limitações importantes: não distingue massa magra de massa gorda, o que pode levar atletas e pessoas com boa composição corporal a serem classificadas como acima do peso. Isso aumenta o risco de prescrições inadequadas quando a avaliação não é feita de forma multidisciplinar.
Desde junho deste ano, o Brasil ampliou critérios para a prescrição de medicamentos para perda de peso, uma mudança que, segundo autoridades, busca ampliar o acesso a tratamentos para quem tem indicação clínica. Ao mesmo tempo, ressalta-se a necessidade de protocolos rígidos, acompanhamento médico, avaliação multidisciplinar e fiscalização para evitar abusos e comercialização irregular.
A principal recomendação das sociedades médicas é que o uso desses medicamentos seja sempre pautado por avaliação médica individualizada, com esclarecimento sobre riscos, efeitos colaterais e alternativas de tratamento. O alerta é claro: empregar canetas emagrecedoras apenas por estética e sem supervisão pode trazer consequências à saúde e, em casos extremos, ser fatal.
