Câmara aprova PEC da Blindagem e dificulta ação da Justiça contra parlamentares
A Câmara dos Deputados aprovou, nesta terça-feira (16), em dois turnos, a chamada PEC da Blindagem — uma proposta de Emenda à Constituição que amplia o alcance do foro privilegiado e impõe novas restrições ao poder da Justiça sobre deputados, senadores e presidentes de partidos políticos.
A proposta recebeu 353 votos a favor e 134 contra no primeiro turno, e 344 a 133 no segundo turno — superando o mínimo necessário de 308 votos para aprovação. Agora, o texto segue para o Senado, após análise de dois destaques (sugestões de alteração no conteúdo).
O que muda com a PEC da Blindagem?
A proposta altera trechos da Constituição relacionados à imunidade parlamentar, medidas cautelares e foro especial. Veja os principais pontos:
Votação secreta para prisão em flagrante: Deputados e senadores só poderão ser presos em flagrante por crime inafiançável, e a manutenção da prisão dependerá de votação secreta no plenário da respectiva Casa (Câmara ou Senado), por maioria dos membros.
Medidas cautelares só via STF: Parlamentares só poderão ser alvo de medidas cautelares (como uso de tornozeleira, afastamento de funções, retenção de passaporte etc.) se a decisão partir exclusivamente do Supremo Tribunal Federal (STF). Juízes de instâncias inferiores não terão mais essa prerrogativa.
Autorização prévia para processo criminal: O STF só poderá abrir processo penal contra deputados ou senadores após autorização da Casa Legislativa à qual o parlamentar pertence. Essa votação será aberta e deve ocorrer em até 90 dias após o recebimento do pedido.
Ampliação do foro privilegiado: A PEC inclui presidentes de partidos com representação no Congresso Nacional entre os beneficiários do foro especial. Eles passarão a ser julgados diretamente pelo STF em ações penais.
Contexto político da aprovação
A votação da PEC foi articulada pelo deputado Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara. Segundo bastidores, a medida foi uma forma de acabar com o bloqueio que deputados da oposição vinham fazendo à Mesa Diretora, em protesto contra a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A proposta entrou em pauta no início do mês, mas só avançou agora, após acordos e concessões.
Como votaram os partidos no 1º turno
Partidos majoritariamente a favor da PEC:
– PL: 83 votos
– União Brasil: 53
– PP: 46
– Republicanos: 42
– MDB: 35
– Podemos: 14
– PDT: 10
– Avante: 6
– PRD: 5
Partidos majoritariamente contra:
– PT: 51 votos contrários (mas 12 votaram a favor)
– PSOL: 14 votos contra (unanimidade)
– PCdoB: 9 votos contra (unanimidade)
– Novo: 4 votos contra
Argumentos pró e contra
A favor da PEC, parlamentares argumentam que o texto resgata o espírito da Constituição de 1988, fortalecendo as garantias institucionais do Legislativo e evitando “abusos judiciais”.
Críticos, no entanto, veem a proposta como um retrocesso que aumenta a impunidade e restringe o alcance da Justiça sobre parlamentares, blindando ainda mais os políticos de investigações e processos.
O episódio remete ao caso do ex-deputado Daniel Silveira, preso em flagrante por apologia ao AI-5 em 2021, cuja prisão foi mantida pela Câmara — mas em votação aberta, como exige a regra atual.
Com a PEC, casos semelhantes poderão ser decididos em votação secreta.
Próximos passos
Com a aprovação em dois turnos pela Câmara, a PEC agora segue para o Senado, onde também precisará ser votada em dois turnos, com ao menos 49 votos favoráveis para ser promulgada.
