Técnico de enfermagem de Paiçandu (PR) oficializa doação do corpo para estudos científicos
Movido pelo desejo de incentivar a pesquisa científica, o técnico de enfermagem aposentado Aparecido Rúbio de Araújo, de 64 anos, morador de Paiçandu (PR), registrou em cartório a vontade de doar o próprio corpo para ser usado em estudos na Universidade Estadual de Maringá (UEM).
A ideia surgiu ainda na adolescência, durante uma aula de ciências.
“Estava dissecando um sapo e algumas baratas. Perguntei ao professor como funcionava com o ser humano, e desde então decidi que queria ser estudado após a morte”, relembra Aparecido.
Em 2000, ele conseguiu oficializar a decisão em cartório e comunicou à família, como exige o protocolo. Sua esposa, Silvana Rúbio, apoia a escolha:
“Se é uma decisão dele, eu respeito. É diferente, mas entendemos que pode ajudar outras pessoas”, afirma.
Histórico de saúde e motivação
Aparecido enfrentou 13 infartos, dois AVCs e chegou a ficar dois meses em coma profundo. Para ele, a doação é uma forma de deixar um legado:
“Para que ser enterrado se eu posso ajudar depois de morto?”, questiona.
No momento de sua morte, além do corpo, prontuários e exames médicos também serão encaminhados à universidade, auxiliando a formação de futuros médicos.
Crescimento das doações no Brasil
Segundo dados do setor, o número de pessoas que registraram interesse em doar o corpo para a ciência triplicou nos últimos anos: eram cerca de mil doadores em 2017 e passaram de três mil em 2024. Só no Paraná, 40 instituições de ensino aguardam doações.
A professora de anatomia da UEM, Aline Marosti, reforça a importância do gesto:
“Só aprender por peças sintéticas ou arquivos em 3D não é suficiente para formar um bom profissional. O contato real faz enorme diferença na formação do aluno”, explica.
Como funciona a doação do corpo para ciência
Quem pode doar: maiores de 18 anos, por registro em cartório, com duas testemunhas e ciência da família.
Casos proibidos: mortes violentas ou por suicídio.
Doadores de órgãos: em geral, podem também doar o corpo, dependendo da avaliação de viabilidade.
Velório: a família pode realizar normalmente antes do translado para a instituição de ensino.
Distribuição no Paraná: feita pelo Conselho Estadual de Distribuição de Cadáveres (CEDC-PR), que encaminha os corpos às universidades.
O corpo passa por um processo de preparação que pode levar até seis meses, sendo utilizado por estudantes de medicina, ainda no primeiro ano do curso, em atividades de dissecação e prática anatômica.
