Carne processada eleva em até 40% risco de câncer colorretal, aponta estudo
Um estudo feito em larga escala identificou dois marcadores genéticos que podem explicar a relação entre ingestão de carne vermelha e câncer colorretal, bem como o motivo pelo qual algumas pessoas têm risco maior de desenvolver a doença.
Publicada na edição de março da revista científica Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, a pesquisa analisou dados de cerca de 30 mil pessoas com câncer colorretal e de quase 40 mil indivíduos sem a doença. Com isso, foi apontado que aquelas que consumem mais carne vermelha (bovina, suína e de cordeiro) ou processada (bacon, salsicha e carnes de frios) apresentam, respectivamente, um aumento de 30% e 40% no risco de ter esse tipo de câncer.

A análise do genoma permitiu identificar os genes HAS2 e SMAD7 como responsáveis por alterar os níveis de risco de câncer com base na ingestão do alimento. Os pesquisadores usaram uma combinação de métodos para identificar as interações gene-ambiente, além de uma abordagem estatística desenvolvida na Keck School of Medicine, da Universidade do Sul da Califórnia, nos EUA.
“Esses métodos estatísticos e softwares de última geração nos permitiram maximizar a eficiência ao testarmos as interações entre genes e carne em 7 milhões de variantes genéticas”, diz William James Gauderman, professor de Ciências da População e da Saúde Pública, em comunicado.

Para isso, reuniram dados de 27 estudos sobre o risco de câncer colorretal em pessoas de origem europeia e criaram medidas de padrão de consumo de carne vermelha e processada. Foram calculadas porções diárias e ajustados os índices de massa corporal, e os voluntários foram divididos a partir da quantidade consumida. A descoberta, contudo, não considera a variabilidade genética que pode fazer com que algumas pessoas sejam mais propensas do que outras.
Em seguida, a equipe compilou dados de mais de 7 milhões de variantes de genes que abrangem os genomas de cada participante do estudo e analisou a posição no genoma, ou polimorfismo de nucleotídeo único (SNP). Em quase todos os SNP do código genético, o risco de câncer com base no consumo de carne vermelha permanecia o mesmo, independentemente da variante genética de uma pessoa.
A exceção foram dois SNPs: um cromossomo 8 e outro no 18, próximos aos genes HAS2 e SMAD7, respectivamente. De acordo com a pesquisa, pessoas com uma variante comum do gene HAS2, encontrada em 66% da população, apresentaram um risco 38% maior de câncer colorretal se consumissem carne de acordo com o nível mais alto dos padrões de ingestão. Pessoas com a variante mais rara do mesmo gene, no entanto, não se mostraram mais suscetíveis à doença.
Já no caso dos participantes com duas cópias da variante mais comum do gene SMAD7, encontrado em cerca de 74% da população, elas apresentam um risco 18% maior de câncer colorretal se consumirem altos níveis de carne vermelha. Aqueles com somente uma cópia da variante mais comum ou duas cópias de uma variante menos comum apresentaram um risco de câncer maior, de 35% e 46%, respectivamente.
O gene SMAD7 regula a hepcidina, proteína ligada ao metabolismo do ferro. “Quando a hepcidina é desregulada, isso pode levar ao aumento da absorção de ferro e até mesmo à sobrecarga de ferro dentro das células”, explicou Mariana Stern, professora de ciências da saúde pública e populacional e urologia.
As carnes vermelhas e processadas contêm altos níveis de ferro heme. Nesse sentido, a equipe ainda pretende fazer um acompanhamento com estudos experimentais que poderão fornecer maiores evidências do impacto do metabolismo desregulado do ferro no desenvolvimento do câncer estudado.
“Essas descobertas sugerem que diferentes variantes genéticas podem conferir um risco diferente de câncer colorretal em indivíduos que consomem carne vermelha e destacam possíveis explicações sobre como a doença se desenvolve”, afirma Joel Sanchez Mendez, estudante de doutorado no departamento de população e ciências da saúde pública da Keck School of Medicine.
