Falhas e atrasos militares prejudicaram resgate após terremotos na Venezuela

Ordens atrasadas de comandantes, falta de equipamentos básicos e confusão geral dificultaram o envio de tropas venezuelanas após os dois terremotos devastadores que atingiram a costa do país no mês passado. Oito fontes familiarizadas com a situação relataram os problemas à Reuters, em meio à forte indignação pública com a atuação do governo.
Os tremores de magnitude 7,2 e 7,5 provocaram a morte de cerca de 5.000 pessoas, segundo dados oficiais. No entanto, especialistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos preveem que o número final de mortos pode quase dobrar.
O impacto do desastre foi severo no estado de La Guaira, região que abriga o principal aeroporto e um porto estratégico do país. No local, centenas de prédios residenciais altos desabaram totalmente ou em parte.
Civis assumiram o controle dos resgates
A presidente interina, Delcy Rodríguez, defendeu as ações governamentais contra as críticas de que os militares demoraram a agir para salvar sobreviventes presos nos escombros. Embora o governo afirme ter mobilizado 4.000 funcionários de imediato, testemunhas apontam que as forças de segurança quase não apareceram nas primeiras horas.
Diante da ausência do Estado, os próprios civis lideraram a resposta nos dois primeiros dias. Os moradores usaram ferramentas rudimentares para retirar mortos e feridos dos desabamentos. Equipes internacionais, bombeiros e poucos soldados voluntários se juntaram aos trabalhos posteriormente.
Oficiais da ativa e fontes diplomáticas indicaram que o sumiço inicial das tropas decorreu da falta de um plano de defesa para desastres e da centralização de ordens. Militares relataram que não podiam mover suas unidades sem instruções diretas, temendo repreensões dos superiores.
Confusão na chefia e falta de estrutura
O cenário de incertezas afetou inclusive a atuação de equipes internacionais de resgate, que perderam horas decisivas aguardando a definição de seus setores de busca. Unidades importantes, como a Brigada de Infantaria da Marinha, ficaram prontas para atuar, mas nunca receberam autorização para partir.
Além dos problemas logísticos, as Forças Armadas sofrem os reflexos de anos de crise econômica, que sucateou a estrutura militar. Relatos indicam que as unidades careciam de caminhões para transporte, picaretas, martelos e helicópteros com visão noturna. O próprio vice-ministro da gestão de crise chegou ao local afetado sem equipamentos de comunicação adequados.
A sobreposição de autoridades também agravou a crise. Delcy Rodríguez nomeou o comandante da Guarda Nacional, Juan Sulbarán Quintero, como chefe da resposta, mas emitiu um decreto que dava poderes paralelos ao ministro do Interior, Diosdado Cabello. A falta de definição gerou debates infrutíferos sobre qual polícia deveria ser enviada para as ruas, atrasando o socorro.
