Brasil movimenta mercado ilegal de milhões de animais silvestres por ano
Vendidos em feiras clandestinas ou negociados por meio de plataformas digitais, os animais silvestres sustentam um dos mercados ilegais mais lucrativos e, ao mesmo tempo, subestimados do Brasil. Estimativas apontam que cerca de 38 milhões de animais são traficados anualmente no país, segundo dados de organizações especializadas no combate a esse tipo de crime.
De acordo com a Comissão Europeia, o tráfico de animais silvestres é o quarto negócio ilegal mais rentável do mundo, ficando atrás apenas do tráfico de drogas, de pessoas e do comércio de armas. O lucro anual dessa atividade pode variar entre 8 bilhões e 20 bilhões de euros. Especialistas alertam que apenas cerca de 10% dos animais capturados chegam vivos ao destino final.
Em São Paulo, somente em 2025, o Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres recebeu 9.487 animais. Deste total, pouco mais de cinco mil passaram por algum tipo de processo de reabilitação, o que evidencia o impacto direto do tráfico sobre a fauna brasileira.

Apesar da existência de leis específicas para a proteção da fauna, especialistas apontam que a legislação ainda é insuficiente diante da complexidade do crime. Em novembro de 2025, foi aprovado um projeto que aumentou as penas para crimes ambientais relacionados à caça, captura e morte de animais silvestres sem autorização, mas a aplicação das normas segue sendo um desafio.
Profissionais da área ambiental afirmam que a falta de agentes fiscalizadores em número adequado e a deficiência na estrutura de fiscalização dificultam o combate efetivo às quadrilhas. Para especialistas em direito ambiental, o problema é agravado por brechas legais e punições consideradas brandas.
As principais vítimas do tráfico no Brasil são aves, mamíferos e répteis. Entre as espécies mais atingidas estão pássaros como coleirinha, canário-da-terra, papagaio-verdadeiro e araras, além de répteis como jabutis e tigres-d’água, e mamíferos como macaco-prego, sagui e gambá.
Durante o transporte ilegal, os animais são submetidos a maus-tratos extremos. Relatos indicam que dezenas de aves chegam a ser colocadas em caixas pequenas, sem água ou alimentação, expostas a calor intenso. A maioria morre antes de chegar ao comprador final.
Nos últimos anos, quadrilhas passaram a utilizar cada vez mais as redes sociais e plataformas digitais para negociar os animais, substituindo gradualmente as feiras físicas. O contato entre traficantes e compradores ocorre de forma virtual, dificultando a fiscalização e ampliando o alcance do comércio ilegal.
Além do sofrimento animal, o tráfico provoca sérios danos ambientais. A retirada de espécies da natureza gera desequilíbrios ecológicos, como o aumento descontrolado de populações de presas e a interrupção de processos essenciais, como a dispersão de sementes e a polinização. Especialistas alertam para o risco da chamada “síndrome da floresta vazia”, quando áreas verdes aparentam estar preservadas, mas estão ecologicamente comprometidas.
Autoridades reforçam que denúncias são fundamentais para combater o tráfico de animais silvestres. O comércio ilegal, a manutenção irregular de animais e situações de risco podem e devem ser comunicados aos órgãos ambientais e às forças de segurança, contribuindo para a proteção da fauna e do equilíbrio ambiental.
