Estudo feito em Rio Preto aponta epidemia de ansiedade entre mulheres acima de 40 anos: ‘Sensação de iminência’
O noroeste paulista vive uma epidemia de ansiedade, indicam pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp). O estudo, publicado em uma revista internacional sobre psiquiatria, em janeiro deste ano, analisou dados de atendimentos do ambulatório de psiquiatria do Hospital de Base (HB) de Rio Preto.
De acordo com o estudo, mulheres de 45 anos são as principais pacientes atendidas com sintomas de ansiedade.

A pesquisa foi coordenada pelo psicanalista Gláucio Camargo e supervisionado pelo psiquiatra Gerardo Araújo Filho, chefe do programa de residência médica em psiquiatria da Famerp.
Foram analisados 8.384 casos e, em 78% deles, as pacientes identificadas eram mulheres com média de idade de 45 anos. O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) foi identificado como o mais comum entre elas.
A pesquisa mostrou que os sintomas predominantes foram tristeza, ansiedade e irritabilidade, sendo os medicamentos mais prescritos os ansiolíticos – remédios que impedem a receptação de serotonina, neurotransmissor que, em níveis adequados, promove o bom-humor.
Preocupações, desespero e ameaça. Esses são alguns dos sintomas que Mariana Barbosa de Oliveira Grespan, de 30 anos, descreve sobre a ansiedade. A moradora de Rio Preto relatou ao g1 os desafios de lutar contra a doença diariamente.

“Me sinto muito preocupada. Coisas pequenas tomam uma proporção enorme, não consigo relaxar nem para dormir, não consigo controlar meus pensamentos, sensação de iminência, como se uma coisa muito ruim fosse acontecer a qualquer momento. Entro em pânico, desespero mesmo, medo do que os outros vão pensar de mim”, detalha Mariana.
Cobrança social e psicológica
De acordo com psicanalista Gláucio Camargo, responsável pelo estudo, o número de mulheres que sofrem com ansiedade é reflexo de cobranças sociais e psicológicas. “Embora o transtorno também se desenvolva nos homens, sabe-se que a carga de cobrança social e psicológica sobre as mulheres é extenuante”, comenta.
Segundo o especialista, os dados reforçam a necessidade de um novo modelo de atenção em saúde mental no Brasil.
“Há escassez de estudos e serviços de referência na área de saúde mental na região noroeste do estado de São Paulo. São necessárias avaliações detalhadas sobre as regiões cobertas pelo serviço e o perfil do usuário atendido. A oferta de serviços específicos para realidades como essas ajuda na melhoria da qualidade de assistência em saúde mental, além de conseguir entender uma perspectiva clínica diferente”.
No entanto, continua Gláucio, um novo modelo necessita de um mapeamento de quais parcelas da população são as mais necessitadas. Além disso, as práticas precisam estabelecer mecanismos que abracem perfis de sintomas que essa determinada população compartilha entre si.
“É importante lembrar que os prejuízos em saúde mental são responsáveis por grande parte do comprometimento na qualidade de vida no Brasil e no mundo”, finaliza Gláucio.
Sintomas do Transtorno de Ansiedade Generalizada:
- Preocupações, tensões ou medos exagerados (a pessoa não consegue relaxar);
- Sensação contínua de que um desastre ou algo muito ruim vai acontecer;
- Preocupações exageradas com a saúde, dinheiro, família ou trabalho;
- Medo extremo de algum objeto ou situação em particular;
- Medo de ser humilhado publicamente,
- Falta de controle sobre os pensamentos, imagens ou atitudes, que se repetem independente da vontade;
- Pavor depois de uma situação muito difícil.
Além desses sintomas, também são comuns: boca seca, náuseas, taquicardia e tremedeira.
