Os pombos são surpreendentemente bons em detectar câncer
O cérebro de um radiologista pode identificar uma alteração em um exame e, ainda assim, não registrá-la de forma consciente. Esse fenômeno explica parte dos diagnósticos perdidos durante a análise de tomografias e motivou uma pesquisa curiosa: cientistas treinaram pombos para reconhecer sinais de câncer de pulmão.
O estudo, conduzido pelo pesquisador Gregory DiGirolamo, do College of the Holy Cross, nos Estados Unidos, não pretende substituir médicos por aves. Na verdade, os resultados podem acelerar o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial capazes de reduzir falhas humanas na interpretação de exames.
Como os pombos participaram da pesquisa
Os pesquisadores treinaram seis pombos para assistir a pequenos vídeos de tomografias computadorizadas. Em seguida, as aves precisavam indicar se as imagens apresentavam ou não nódulos pulmonares, que podem representar sinais iniciais de câncer.
Metade dos pombos recebia alimento ao acertar imagens com nódulos. A outra metade era recompensada quando identificava corretamente exames normais.
Depois do treinamento, os animais passaram a reconhecer exames inéditos com boa precisão. Além disso, identificaram alterações pulmonares diferentes daquelas ensinadas inicialmente.
Descoberta pode melhorar a inteligência artificial
Os cientistas observaram que os pombos também passaram a identificar sinais de enfisema e áreas conhecidas como “vidro fosco”, frequentemente associadas ao câncer de pulmão em estágio inicial.
Segundo os pesquisadores, isso indica que existe um padrão visual comum entre essas doenças. O cérebro humano também pode perceber esse padrão, mesmo quando o médico não toma consciência da alteração.
O cérebro percebe antes da consciência
Em um estudo anterior, publicado em 2025, a equipe utilizou rastreamento ocular para acompanhar radiologistas durante a análise de tomografias.
Os resultados mostraram que, ao olhar para um nódulo suspeito, os médicos fixavam os olhos por mais tempo e apresentavam dilatação das pupilas. Mesmo assim, em alguns casos, concluíam que o exame estava normal.
Isso sugere que o cérebro identifica a alteração antes mesmo da percepção consciente.
Tecnologia pode reduzir erros médicos
Agora, os pesquisadores pretendem transformar essas informações em ferramentas de inteligência artificial.
A proposta consiste em combinar movimentos dos olhos, dilatação das pupilas e outras respostas fisiológicas para ensinar a IA a reconhecer situações nas quais o cérebro percebe uma alteração, mas o médico acaba não relatando o problema.
Segundo Gregory DiGirolamo, a tecnologia funcionará como uma segunda opinião inteligente, aumentando a segurança do diagnóstico sem substituir o trabalho dos especialistas.
Aplicações vão além da medicina
Os pesquisadores acreditam que o mesmo método poderá ajudar cardiologistas na interpretação de eletrocardiogramas e especialistas de outras áreas.
No futuro, sistemas semelhantes também poderão auxiliar peritos na identificação de obras de arte falsificadas ou agentes de segurança na detecção de ameaças em aeroportos.
Embora ainda esteja em desenvolvimento, a pesquisa demonstra como o estudo do comportamento animal pode contribuir para avanços importantes na medicina e em outras áreas que dependem da interpretação precisa de imagens.
