Escuta Protegida evita que crianças revivam traumas durante investigações de violência

Nesta quarta-feira, 4 de junho, o Dia Mundial das Crianças Vítimas de Agressão reforça a importância da proteção à infância. A data chama atenção para casos de maus-tratos, violência física, abuso sexual e outras agressões sofridas por crianças e adolescentes.
Nesse contexto, a Lei da Escuta Protegida representa um importante avanço. A legislação busca garantir que vítimas e testemunhas de violência recebam atendimento adequado e humanizado.
Além disso, a norma evita que crianças revivam repetidamente situações traumáticas durante investigações e processos judiciais.
Lei combate a revitimização
Antes da criação da Lei nº 13.431, crianças precisavam repetir diversas vezes os relatos sobre a violência sofrida.
O problema ocorria em atendimentos na saúde, assistência social, Conselho Tutelar e polícia. Como consequência, muitas vítimas reviviam constantemente o sofrimento.
Especialistas classificam essa situação como revitimização.
Além disso, alguns procedimentos aconteciam sem estrutura adequada. Em determinados casos, crianças ficavam frente a frente com os próprios agressores.
Por isso, a legislação criou mecanismos específicos para proteger as vítimas durante todo o processo.
O que prevê a Lei da Escuta Protegida?
A legislação estabelece dois procedimentos distintos.
Primeiramente, ocorre a Escuta Especializada. Profissionais capacitados da rede de proteção realizam esse atendimento.
Nesse momento, o foco está no acolhimento da vítima e na identificação das necessidades imediatas. Portanto, o procedimento não possui finalidade investigativa.
Posteriormente, acontece o Depoimento Especial.
Nesse caso, especialistas conduzem a entrevista em ambiente apropriado e acolhedor. Enquanto isso, magistrados, promotores e advogados acompanham o procedimento sem contato direto com a criança.
Dessa forma, o sistema protege a vítima e reduz impactos emocionais.
Publicada em 2017, a legislação entrou em vigor em 2018. Desde então, estados e municípios devem garantir estruturas adequadas para sua aplicação.
MPTO atua para ampliar a proteção
Desde a implantação da lei, o Ministério Público do Tocantins (MPTO) desenvolve ações para fortalecer a rede de proteção.
Por meio do Centro de Apoio Operacional às Promotorias da Infância, Juventude e Educação (Caopije), o órgão promove reuniões, orientações e capacitações.
Além disso, o MPTO acompanha a implementação da Escuta Especializada nos municípios tocantinenses.
Na Justiça estadual, todos os fóruns já possuem condições para realizar o Depoimento Especial.
Da mesma forma, o Ministério Público elaborou materiais de orientação e finaliza um curso sobre Escuta Protegida destinado às prefeituras.
Segundo o promotor de Justiça Sidney Fiori, o trabalho envolve instituições das áreas de saúde, educação, assistência social e Justiça.
Ele destaca que o Centro de Atendimento 18 de Maio, em Palmas, representa um dos principais resultados desse esforço conjunto.
Casos de Alvorada e Talismã
Quando o diálogo não produz resultados, o Ministério Público recorre às medidas judiciais.
Recentemente, o órgão ingressou com ações envolvendo os municípios de Alvorada e Talismã.
Segundo o MPTO, as administrações precisavam criar estruturas adequadas para a Escuta Especializada.
Atualmente, Talismã já cumpre as exigências previstas na legislação.
Enquanto isso, o processo judicial relacionado a Alvorada continua em andamento.
Comitê Gestor é o primeiro passo
A implementação da Escuta Protegida começa com a criação do Comitê Gestor da Rede de Proteção.
Em seguida, representantes da saúde, educação, assistência social e Conselho Tutelar definem os procedimentos de atendimento.
Posteriormente, o município elabora o Fluxo e Protocolo Intersetorial de Escuta.
Esse documento estabelece o caminho que cada denúncia deve seguir dentro da rede de proteção.
Após a aprovação pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), o município capacita os servidores e estrutura salas apropriadas para os atendimentos.
Dessa maneira, a legislação transforma proteção em uma realidade concreta para crianças e adolescentes.
