Aos 17 anos, Marina, nome fictício usado para preservar sua identidade, já faz planos para financiar a própria casa, cursar Medicina e construir uma família baseada no amor que nunca recebeu na infância. Entretanto, enquanto projeta o futuro, ela também enfrenta a dura realidade da adoção tardia no Tocantins.
A jovem trabalha na área financeira e deseja se especializar em Neuropediatria. Além disso, busca inspiração em histórias reais da medicina e no neurocirurgião Ben Carson, retratado no filme Mãos Talentosas.
“Quero cuidar de crianças. Ter minha família e dar para ela tudo aquilo que eu nunca tive. Quero dar amor”, relata.
Marina vive há quatro anos no abrigo Sementinhas de Amor, em Palmas, após passar por outras instituições de acolhimento ao lado do irmão mais velho. Agora, faltando poucos meses para completar 18 anos, ela sabe que deixará oficialmente a lista de adolescentes aptos à adoção.
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Mesmo assim, mantém esperança. “Eu sonho, sim, em ter uma família. Mas também aprendi que minha vida não pode parar esperando apenas isso acontecer”, afirma.
Irmãos querem permanecer juntos
Gabriel, de 13 anos, também conhece de perto essa realidade. O adolescente vive em acolhimento institucional desde os nove anos junto do irmão caçula Rafael, de 6 anos, diagnosticado com autismo.
Apaixonado por futebol e animais, ele sonha em ser jogador ou veterinário. Porém, acima de qualquer profissão, existe um desejo maior: encontrar uma família que aceite os dois irmãos juntos.
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“Eu e meu irmão queremos muito ser adotados pela mesma família. É o nosso sonho”, conta.
Além disso, Gabriel já enfrentou duas tentativas frustradas de adoção. Ainda assim, não desistiu de acreditar em um novo começo.
“O que eu mais queria dizer é que eu mereço uma nova chance. A gente só quer crescer junto, sendo amado”, desabafa.
Adoção tardia ainda enfrenta barreiras
Atualmente, o Tocantins possui 134 crianças e adolescentes em acolhimento institucional ou familiar. No entanto, apenas 13 estão aptos à adoção. Desses, 12 têm entre 13 e 17 anos e seis possuem algum tipo de deficiência.
Segundo o juiz Adriano Gomes de Melo Oliveira, coordenador da Coordenadoria da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça do Tocantins, o maior desafio continua sendo o perfil procurado pela maioria das famílias.
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“Geralmente procuram crianças recém-nascidas, menores e sem problemas de saúde. Enquanto isso, adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiência acabam esperando por muito tempo”, explica.
Além disso, o magistrado ressalta que adolescentes acolhidos carregam traumas, inseguranças e medo de novas rejeições. Por isso, o acompanhamento psicológico e social se torna essencial durante todo o processo.
“O adolescente já tem personalidade, dores e vivências. Ainda assim, a adoção tardia representa um gesto de amor extremamente nobre”, destaca.
Abrigos convivem com frustrações e esperança
No abrigo Sementinhas de Amor, a coordenadora Adriana Oliveira Alves acompanha diariamente os impactos emocionais da longa espera por uma família.
“O mais difícil acontece com os adolescentes. As famílias ainda preferem crianças menores e isso torna a adoção tardia muito delicada”, afirma.
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Ela explica que, quando uma adoção não se concretiza, o sofrimento atinge não apenas os acolhidos, mas também toda a equipe da instituição.
“Eles sofrem muito. Nós sofremos junto. Surge tristeza, revolta e questionamentos. Então, precisamos mostrar que o valor deles não diminui porque alguém desistiu”, relata.
Programa prepara jovens para vida adulta
Enquanto aguardam uma oportunidade de adoção, adolescentes acolhidos também recebem apoio para enfrentar a vida fora dos abrigos. No Tocantins, o Programa Novos Caminhos atua na preparação desses jovens para a autonomia financeira, profissional e emocional.
A iniciativa funciona em parceria com o Conselho Nacional de Justiça, o Tribunal de Justiça do Tocantins e a Universidade Estadual do Tocantins.
Segundo a servidora Cleide Leite, o projeto busca garantir educação, qualificação profissional e fortalecimento emocional antes que os adolescentes deixem o acolhimento institucional.
“O objetivo é que esses jovens consigam sair do acolhimento com dignidade, autonomia e uma rede de apoio”, reforça.
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Ao mesmo tempo, Marina segue estudando, trabalhando e economizando dinheiro para realizar seus sonhos. Apesar das dificuldades, ela ainda acredita que pode encontrar uma família.
“Quero conquistar minha casa e crescer profissionalmente”, resume.
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