Fim da Taxa das Blusinhas acende alerta no setor têxtil e pode afetar algodão

O eventual fim da Taxa das Blusinhas, cobrança aplicada a compras internacionais de pequeno valor, acendeu alerta entre representantes da cadeia do algodão e da indústria têxtil no Brasil. O setor avalia que a medida pode reduzir a demanda interna por produtos nacionais e pressionar os preços da pluma.
Atualmente, cerca de um terço da produção brasileira de algodão permanece no país para ser transformada em produtos finais, como fios, tecidos e roupas. Com a possível retirada da tributação, entidades temem que consumidores voltem a priorizar roupas importadas compradas em plataformas internacionais.
Setor vê risco para a cadeia nacional
O diretor-executivo da Abrapa, Márcio Portocarrero, afirmou que o fim da taxação pode representar risco para toda a cadeia têxtil nacional. Segundo ele, a maior entrada de produtos importados pode reduzir o consumo doméstico de algodão.
Caso a demanda interna diminua, produtores podem buscar novos mercados internacionais para absorver a produção. Isso ampliaria o volume exportado de algodão brasileiro.
No entanto, a exportação da matéria-prima gera menos valor agregado do que a transformação do algodão em fios, tecidos e roupas dentro do país.
Preço do algodão pode sofrer pressão
Representantes do setor também avaliam que uma queda no consumo interno pode desvalorizar o algodão em pluma. Esse cenário preocupa produtores que já trabalham com margens apertadas.
Além disso, uma possível pressão sobre os preços pode influenciar decisões futuras sobre área plantada. Se o mercado interno perder força, parte dos produtores pode rever investimentos.
Indústria têxtil critica fim da cobrança
A Abit, que representa a indústria têxtil e de confecção, também se posicionou contra o fim da taxação. A entidade afirma que a medida pode reduzir a competitividade da produção nacional diante de mercados internacionais, especialmente o chinês.
Segundo a associação, a entrada maior de produtos acabados importados pode afetar produção, empregos, investimentos e arrecadação no Brasil.
O setor têxtil e de confecção movimenta R$ 221 bilhões por ano e emprega cerca de 1,31 milhão de pessoas em mais de 25 mil empresas no país.
Como funciona a Taxa das Blusinhas
Pelas regras atuais do Remessa Conforme, compras internacionais de até US$ 50 feitas em sites certificados pagam 20% de Imposto de Importação. Para compras acima desse valor, a alíquota é de 60%, com desconto fixo de US$ 20 sobre o imposto.
Segundo dados citados pelo setor, o Remessa Conforme arrecadou R$ 9,6 bilhões desde a implementação, em agosto de 2024. Em 2025, a arrecadação chegou a R$ 5 bilhões, enquanto até abril de 2026 foram R$ 1,78 bilhão.
Debate envolve indústria, varejo e governo
A permanência da cobrança é defendida por setores da indústria, que alegam necessidade de isonomia tributária entre produtos nacionais e importados.
Por outro lado, a taxa é considerada impopular por parte dos consumidores, que veem a cobrança como aumento no custo das compras internacionais.
O governo federal ainda discute os impactos de uma eventual revogação. A decisão envolve efeitos sobre varejo, arrecadação, indústria nacional e competitividade dos produtos brasileiros.
