Facções criminosas expulsam 30 famílias e transformam vila em “território fantasma” no Ceará
Uma vila de casas em Pacatuba, na Região Metropolitana de Fortaleza, tornou-se um verdadeiro “território fantasma” após cerca de 30 famílias serem expulsas por facções criminosas. As casas estão trancadas, muitas ainda com móveis e objetos pessoais, mas sem sinal de moradores. Em vários muros, pinturas tentam esconder símbolos e pichações de facções rivais.
A área, conhecida como Jacarezal, foi palco de uma disputa violenta entre os grupos Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) — este último, aliado da facção cearense Guardiões do Estado (GDE). A guerra pelo domínio da região resultou em abandono, medo e insegurança.
De acordo com relatos de moradores, a expulsão ocorreu em setembro, após semanas de confrontos. O CV assumiu o controle da área, antes dominada pela GDE. Em resposta, a GDE se aliou ao TCP, intensificando os tiroteios e as ameaças. Um morador foi assassinado por se recusar a deixar sua casa.

Com medo, os moradores abandonaram o local às pressas. Casas, bares e até uma igreja foram deixados para trás. Animais domésticos circulam pelas ruas desertas.
Moradores vivem sob medo constante
Moradores das redondezas relatam ameaças e restrições de circulação. Muitos afirmam que a polícia só aparece quando há mortes.
“Tem gente que vem pegar suas coisas e não consegue. Um rapaz tentou buscar a geladeira e foi impedido. Aqui está muito perigoso”, contou um morador ao g1.
Outro relatou:
“Depois das 21h ninguém mais anda a pé. Eles (criminosos) mandam sair e matam quem não obedece.”
Antes da invasão, o Jacarezal era considerado território da GDE e abrigava pontos de venda de drogas. Em setembro, pichações com a sigla do Comando Vermelho (CV) começaram a surgir, marcando a tentativa de domínio do grupo carioca. Dias depois, o TCP se uniu à GDE para tentar retomar o controle da região.
Após a morte de um morador que desobedeceu à ordem de saída, a vila foi completamente esvaziada.
O que dizem as autoridades
A Polícia Militar informou que reforçou o patrulhamento no bairro Jereissati III, onde fica a vila.
A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), disse que investiga as ameaças, mas ainda não há presos.
O Ministério Público do Ceará (MPCE) acompanha o caso por meio do Gaeco e colocou à disposição das vítimas o Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência (Nuavv).
A Prefeitura de Pacatuba afirmou que não foi procurada formalmente pelos moradores, mas prometeu reforçar a segurança e melhorar a iluminação pública.
Expulsões em série no Ceará
Desde 2015, o Ceará registra centenas de casos de expulsão forçada por facções. A Defensoria Pública acompanha as denúncias, mas mantém os números sob sigilo.
Em bairros de Fortaleza e cidades vizinhas, famílias são obrigadas a abandonar suas casas sob ameaça de morte.
Segundo o pesquisador Artur Freitas, do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), a localização da vila — próxima à rodovia CE-060, que liga várias cidades do estado — torna o local estratégico para o tráfico.
“Territórios próximos a portos e rodovias são valorizados porque facilitam o escoamento de mercadorias ilegais. Quando há troca de domínio, as facções fazem uma ‘limpeza’, expulsando possíveis aliados do grupo rival”, explicou o especialista.
