A vodca russa que virou ‘antídoto’ e salvou a vida de um brasileiro
Um simples copo de bebida quase tirou a vida de um comerciante paulista, mas um destilado improvável acabou se tornando o que muitos chamaram de “cura milagrosa”. Cláudio Crespi, de 55 anos, foi vítima de uma grave intoxicação por metanol após consumir vodca adulterada em um bar de Guarulhos, em São Paulo. O caso ganhou repercussão por causa da solução inusitada encontrada pelos médicos: doses controladas de uma vodca russa legítima usadas como tratamento emergencial.
Tudo começou no fim de setembro, quando Cláudio começou a sentir dores abdominais intensas, falta de ar e confusão mental. Sem imaginar o que estava acontecendo, foi levado às pressas para uma unidade de pronto atendimento, onde precisou ser intubado. Exames confirmaram que ele havia ingerido uma bebida contaminada com metanol, substância altamente tóxica para o organismo humano e capaz de causar danos irreversíveis.
A situação era crítica e, para piorar, o antídoto adequado o fomepizol estava em falta. Nesse momento, a família do comerciante se mobilizou em busca de uma alternativa. Um primo médico lembrou que o etanol, presente em bebidas como a vodca, poderia atuar como bloqueador do efeito do metanol. A sobrinha de Cláudio, então, levou ao hospital uma garrafa de vodca russa com 40% de álcool. Foi o início de uma corrida contra o tempo para salvar sua vida.

Vodca substituiu o antídoto e evitou o pior
Durante quatro dias, a bebida foi administrada por sonda enquanto Cláudio permanecia em coma induzido. O procedimento foi acompanhado de perto por uma equipe médica, que também realizou hemodiálise e controlou a acidez do sangue. Embora pareça algo saído de um filme, a estratégia tinha base científica: o fígado, ao receber o etanol, passa a metabolizá-lo em vez do metanol, retardando a transformação da substância tóxica em compostos letais.
De acordo com o médico emergencista Ademar Simões, o método é uma forma temporária de controle, mas só deve ser feito sob supervisão médica. “Quando o fígado está ocupado processando o etanol, o metanol é eliminado mais lentamente, o que dá tempo para o corpo reagir e receber o tratamento adequado”, explicou. Esse intervalo é essencial para evitar danos graves, especialmente aos rins e aos nervos ópticos.
Apesar da gravidade do quadro, o comerciante reagiu bem. Após duas semanas internado, recebeu alta e agora se recupera em casa. Ainda enfrenta sequelas na visão, com dificuldade para enxergar cores e luzes, mas consegue andar e falar normalmente. O caso despertou curiosidade e serviu como alerta sobre os riscos de consumir bebidas adulteradas.
Casos de intoxicação por metanol preocupam autoridades
O episódio de Cláudio não é isolado. Somente no estado de São Paulo, já foram confirmadas 25 intoxicações por metanol neste ano, com cinco mortes registradas e mais de 160 casos em investigação. As autoridades reforçam que o consumo de bebidas de origem duvidosa representa um perigo real, capaz de causar cegueira, insuficiência renal e até a morte em poucas horas.
O fomepizol, considerado o antídoto mais eficaz, começou a ser redistribuído recentemente aos hospitais paulistas, com cerca de 300 unidades enviadas para conter novos casos. Diferente do etanol, que apenas retarda o processo tóxico, o fomepizol bloqueia diretamente a enzima responsável por transformar o metanol em ácido fórmico, substância que ataca o sistema nervoso.
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O caso de Cláudio Crespi mostra como a combinação entre conhecimento médico e ação rápida pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Embora a vodca russa tenha salvado o comerciante em um momento de desespero, os especialistas lembram que o uso de bebidas alcoólicas como antídoto é uma medida extrema e temporária. No fim, o episódio serve como lição sobre a importância da prevenção e da desconfiança diante de qualquer bebida sem procedência.
