Milhares de palestinos retornam à Cidade de Gaza e se deparam com destruição após retirada das tropas israelenses
Milhares de palestinos começaram a retornar à Cidade de Gaza neste sábado (11), segundo dia do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, e se deparam com um cenário de devastação após semanas de intensos bombardeios. O governo israelense aprovou a primeira fase da trégua na sexta-feira (10) e iniciou a retirada de tropas de diversas áreas do território palestino, o que deve abrir caminho para a libertação dos reféns israelenses mantidos em Gaza desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.
Com o estabelecimento do cessar-fogo, dezenas de milhares de palestinos deslocados começaram a retornar do sul ao norte da Faixa de Gaza, na tentativa de reencontrar suas casas. A maioria, porém, encontrou apenas ruínas. Raja Salmi, uma das moradoras que retornaram, descreveu o trajeto de mais de 15 km entre Khan Yunis e a Cidade de Gaza como “exaustivo e cheio de medo”. Ao chegar ao bairro de Al Rimal, ela encontrou o lar completamente destruído. “Não existe mais, não passa de um monte de escombros”, disse à AFP.
As ruas da Cidade de Gaza estão cobertas de destroços, com prédios sem janelas e muros desabados. “As imagens são mais fortes do que qualquer palavra: destruição, destruição e mais destruição”, afirmou Saher Abu al Ata, outro morador, diante do hospital infantil Al Rantisi, agora em ruínas.

Retorno em massa e situação humanitária
Segundo a Defesa Civil de Gaza, cerca de 250 mil pessoas já retornaram ao norte do território desde a entrada em vigor da trégua. A rodovia Al Rashid, que margeia a costa, segue tomada por filas de pedestres e veículos.
De acordo com o Escritório da ONU para Assuntos Humanitários (Ocha), Israel autorizou o envio de 170 mil toneladas de ajuda humanitária, incluindo alimentos, água, medicamentos e combustível, para os primeiros 60 dias do cessar-fogo. Organizações como os Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertam que as necessidades permanecem críticas: “Duas milhões de pessoas enfrentam o inverno sem abrigo adequado”, afirmou Jacob Granger, coordenador da MSF em Gaza.
Plano de paz e mediação internacional
O acordo de cessar-fogo segue o plano de 20 pontos proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prevê a libertação dos 47 reféns restantes (vivos e mortos) em troca de 250 prisioneiros palestinos e 1.700 detidos em Gaza desde o início da guerra. A lista divulgada por Israel não inclui figuras de destaque da luta armada palestina.
Trump declarou confiança de que a trégua “se manterá”, destacando que “ambos os lados estão cansados de lutar”. O presidente americano confirmou que pretende viajar neste fim de semana a Israel e Egito, países que, ao lado de Catar e Turquia, atuam como mediadores.
Entretanto, questões fundamentais ainda não foram resolvidas — entre elas, o desarmamento do Hamas, rejeitado pelo grupo, e a proposta de autoridade de transição em Gaza sob supervisão americana.
Balanço da guerra
A ofensiva israelense em Gaza deixou 67.682 mortos, segundo o Ministério da Saúde do território, números considerados confiáveis pela ONU. Mais da metade das vítimas são mulheres e crianças. O conflito começou em 7 de outubro de 2023, após o ataque do Hamas que matou 1.219 pessoas em Israel, a maioria civis, de acordo com dados oficiais compilados pela AFP.
