20 euros da discórdia: nova cédula com imagem de Marie Curie gera disputa entre Polônia e França
Se você pensou que Marie Curie nasceu na França, saiba que não está sozinho. A cientista, duas vezes vencedora do Prêmio Nobel por suas pesquisas sobre a radioatividade, adotou o sobrenome do marido francês, Pierre Curie — mas nasceu Maria Skłodowska, em Varsóvia, atual capital da Polônia.
Sua trajetória, no entanto, está profundamente ligada à França, onde viveu por mais de três décadas, desenvolveu sua carreira científica e se tornou a primeira mulher professora da Universidade de Paris. Em 1995, foi também a primeira mulher sepultada por mérito próprio no Panteão de Paris — ao lado de figuras históricas como Voltaire e Rousseau.

A disputa por uma identidade
Quando recebeu o primeiro Nobel, em 1903, Marie foi creditada como “Marie Curie”, ao lado do marido. Já no segundo prêmio, em 1911, na área da química e após a morte de Pierre, ela passou a assinar como Marie Skłodowska-Curie, resgatando suas raízes. Mesmo assim, a assinatura dupla nunca se popularizou, alimentando uma disputa simbólica entre franceses e poloneses.
Essa tensão ressurgiu em 2024, com o anúncio do Banco Central Europeu (BCE) de que a cientista poderia ser homenageada nas novas cédulas do euro, sob o tema “Cultura Europeia”.
20 euros da discórdia
Ao ver o nome listado como “Marie Curie”, autoridades polonesas reagiram rapidamente. Segundo o site Politico, diplomatas em Bruxelas alertaram o BCE, e o governador do Banco Central da Polônia, Adam Glapiński, enviou uma carta formal à presidente do BCE, Christine Lagarde.
Parlamentares europeus — poloneses e aliados — também protestaram, exigindo o reconhecimento da identidade completa da cientista. O BCE, então, ajustou o nome no site oficial para “Marie Curie (nascida Skłodowska)”.

A instituição abriu um concurso para escolher o design das novas cédulas e pretende finalizar o processo até 2026. Ainda não há data definida para a circulação das notas. Apesar de não adotar o euro, a Polônia mantém a pressão — e o debate, vivo.
Por que isso importa tanto para os poloneses?
A apresentadora e escritora Karolina Żebrowska aborda o tema em um vídeo no YouTube: “Por que os poloneses são tão obcecados pelo fato de Marie Skłodowska-Curie ser polonesa?”
Ela explica que o país foi alvo de diversas tentativas de apagamento histórico: a Polônia desapareceu do mapa da Europa três vezes nos últimos três séculos, dividida entre impérios vizinhos — o Alemão (Prússia), o Austro-Húngaro e o Russo.
Quando Marie nasceu, em 1867, Varsóvia estava sob domínio do Império Russo. O idioma e a cultura polonesa eram reprimidos. Mulheres não podiam estudar em universidades. Por isso, aos 24 anos, ela se mudou para a França em busca de oportunidades.

Polônia no coração e na ciência
Apesar de viver na França, Marie manteve viva sua identidade polonesa. Aprendeu o idioma com a mãe, ensinou às filhas, e nomeou o primeiro elemento químico que descobriu como polônio, em homenagem à sua pátria.
Seu país natal só recuperou a soberania em 1918, após a Primeira Guerra Mundial. Mas o orgulho polonês por sua figura mais ilustre nunca arrefeceu.
E agora, mais de um século depois, a discussão sobre como ela deve ser lembrada — e nomeada — volta à cena europeia, num contexto que vai além da homenagem: fala sobre pertencimento, memória histórica e reconhecimento.
