Morre aos 100 anos no Tocantins a anciã Karajá que estampou a cédula de mil cruzeiros
Morreu no último dia 11 de agosto, aos 100 anos e sete meses, a anciã Djidjuke Karajá, da aldeia Hãwalo, localizada em Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal (TO). Reconhecida nacionalmente como símbolo da cultura indígena, Djidjuke estampou, ao lado de Koixaru Karajá, uma edição comemorativa das notas de 1.000 cruzeiros lançadas em 1990. A causa da morte não foi divulgada pela família.
Mais do que uma referência visual, Djidjuke foi, por décadas, uma guardiã dos saberes do povo Karajá. Pajé desde a infância — condição rara para mulheres na época —, ela teve sua trajetória marcada pelo cuidado com a saúde da comunidade, utilizando conhecimentos ancestrais sobre raízes e plantas medicinais.
“Ela já nasceu pajé. Desde pequena já tinha essa missão. Era muito raro, porque antigamente as mulheres eram mais voltadas para dentro de casa. Ela foi uma exceção poderosa”, contou uma parente, que preferiu não se identificar.

Além do dom da cura, Djidjuke era mestra em cerâmica e artesanato ritual. Produzia panelas de barro, pratos cerimoniais e as tradicionais bonecas Ritxoko, hoje amplamente reconhecidas como símbolo da cultura Karajá.
“Ela era sábia. Sabia tudo o que uma mulher precisava saber: curava, fazia cerâmica, produzia adornos sagrados. E sempre com um sorriso no rosto”, relatou a familiar.
A imagem de Djidjuke na nota de cruzeiro dos anos 1990 imortalizou sua pintura facial preferida, imediatamente reconhecida por todos. Segundo relatos, a figura da anciã simbolizava alegria, sabedoria e força espiritual.

A perda de Djidjuke provocou comoção entre representantes de órgãos ligados aos povos tradicionais. Em nota, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) lamentou a morte e exaltou sua importância como “guardião dos saberes da medicina tradicional”.
Já o Distrito Sanitário Especial Indígena Araguaia (DSEI Araguaia) destacou, por meio de seu coordenador Labé Kàlàriki Karajá, que Djidjuke ajudou inúmeras pessoas ao longo de sua vida, deixando um legado que inspira as novas gerações.
“Que sua história, sabedoria e legado permaneçam vivos na memória de seu povo e inspirem as futuras gerações”, diz a nota oficial.
Djidjuke Karajá parte como uma das grandes referências femininas da espiritualidade indígena brasileira, deixando sua marca não só na memória do povo Karajá, mas também na história do Brasil.

