Doença do refluxo pode ser mais grave em pacientes obesos
Um em cada quatro brasileiros de 18 anos de idade ou mais estava obeso em 2019, o equivalente a 41 milhões de pessoas, enquanto na faixa etária de 25 a 39 anos, a prevalência de excesso de peso ultrapassou os 50%. Já a proporção de obesos na população com idade igual ou acima de 20 anos mais que dobrou no país entre 2003 e 2019, passando de 12,2% para 26,8%. É o que constatou a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Causada por diferentes fatores genéticos, psicológicos, fisiológicos e até mesmo ambientais, a obesidade é caracterizada pelo excesso de gordura corporal e se apresenta como fator de risco e agravamento para uma série de doenças. Uma delas é a Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), que atinge cerca de 30% da população adulta do Brasil, segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG).

Mas quando se trata de pacientes obesos, quase a totalidade apresenta algum sintoma de refluxo. E, o pior, muitas vezes de forma mais acentuada e com maior risco de complicações, conforme adverte o médico gastroenterologista, especialista em endoscopia digestiva, Newton Teixeira. “Na verdade, hoje é incomum um paciente obeso não apresentar refluxo. Esses pacientes refluem tanto que, muitas vezes, sufocam durante o sono devido ao alimento ou suco gástrico chegar até a boca ou via aérea. Cabe lembrar que o paciente com refluxo crônico tem maior chance de desenvolver Esôfago de Barrett, o qual pode degenerar para um tipo de câncer esofágico. Nos pacientes obesos, os índices desta patologia podem ser maiores”, alerta.
O sócio titular da Sociedade Brasileira de Endoscopia digestiva e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica lembra que o refluxo ocorre por um desequilíbrio pressórico dentro do estômago do paciente. Portanto, quanto mais gordura abdominal ele apresenta, maior a pressão exercida no estômago, o que faz com que o alimento acabe refluindo e gerando tantos incômodos.
Além dos sinais de sufocamento ao dormir e da doença pré-cancerosa Esôfago de Barrett, em casos crônicos, os pacientes obesos que sofrem com a DRGE também costumam sentir dor no peito, azia e tosse, entre outros sintomas que podem comprometer diretamente sua qualidade de vida e saúde.
O tratamento
Newton Teixeira salienta que a perda de peso sempre é um fator positivo para minimizar o refluxo, mas faz um alerta aos pacientes portadores da DRGE que pensam em recorrer à cirurgia bariátrica. Segundo o médico, dentre as técnicas realizadas hoje no Brasil, uma delas aumenta a pressão intra-abdominal, o que pode acabar agravando a doença. Portanto, o recomendável é que esta opção seja amplamente discutida com o especialista. Já em pacientes com hérnia de hiato, condição em que parte do estômago impulsiona o músculo do diafragma, muito comum em pacientes obesos, a correção cirúrgica pode ser uma boa opção, já que o refluxo tem uma próxima relação com esta patologia, conforme destaca o gastroenterologista.
Neste caso, trata-se da cirurgia de fundoplicatura, realizada na maioria das vezes por laparoscopia, cujo objetivo é reconstruir a anatomia do estômago e do esôfago para controlar a doença. Agora já é possível também realizar a fundoplicatura endoscópica, com uso do dispositivo médico Esophyx. O procedimento, que já é usado nos Estados Unidos e Europa há mais de dez anos para tratamento da Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE), teve seu uso aprovado pela Agência Nacional Vigilância Sanitária (Anvisa) em outubro do ano passado. O procedimento é minimamente invasivo e apresenta menor risco de complicações.
Por outro lado, também é possível reduzir os sintomas do refluxo a partir de algumas mudanças no estilo de vida, como evitar comer e deitar em seguida, alimentar-se em grandes volumes, bem como alimentos gordurosos, condimentos e bebidas gaseificadas e ricas em cafeína. “Converse sempre com seu médico sobre as técnicas propostas para seu tratamento. Refluxo e obesidade são doenças que caminham lado a lado. Trate-as, cuide-se e melhore sua qualidade de vida”, destaca Teixeira.
