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O tempo que me resta

Sem categoria — 31/03/2015 - 20:00 / Atualizado em: 10/09/2020 · 17:29 Por:  Soli Deo Gloria

Viver fez com que eu me revestisse de obstinação. Persisto. Teimo. Não me intimido. Não tenho medo de me ver empurrado na direção do imponderável. Lido, constantemente, com alegrias e decepções, tristezas e triunfos. Nutro uma estranha sensação de que nada mais tem força de me espantar.

Paradoxalmente, enquanto insisto na teimosia, abandono o desafio de mover montanhas.

Por anos, esqueci de contar os meus dias. Desperdicei tempo. Engajado demais com idealismos, procurei construir castelos no improvável. Me perdi – ativismo cega. Abracei mais projetos do que podia. Só agora vejo que muitos deles não passavam de fuga. Na correria, desaprendi a arte de monologar. Quebrei espelhos. Eu não queria ficar cara a cara comigo mesmo. Devaneios onipotentes me lançaram ao delírio como se fosse um mar aberto. Imaginei ter capacidade de antecipar borrascas. Confundi esperança com messianismo. Desenraizei-me do chão e me projetei na irrealidade. Embora nunca tenha admitido, agora confesso: o empreendedorismo me sufocou. A construção da personagem triunfante me deixou cansado.

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Consternado, noto o vazio que embaça os olhos de antigos companheiros. O oco neles é tenebroso. Entristecido por vê-los roubados de si, tatuo na pele um novo mandamento: viva com intensidade. Não quero perder a alma. Marco a ferro o imperativo de só ter sede de beleza, de justiça e do bem.

Hoje, com poucas folhas no calendário, tento dobrar o valor de cada instante. Redescubro o ócio de ler, recitar poesia, meditar, orar. Aprendo a manter a rotina dos malucos que nos brindaram com literatura, pintura, escultura, música. Desejo me reencontrar no des-sufoco. Sou desafiado pela alvorada a encarar a existência sem espalhafato. Mesmo que alguma tragédia ronde a minha casa, proponho a mim mesmo perder a pressa.

Quero viver, simplesmente. Consciente de que as pedras no caminho podem se multiplicar, desejo ser, simplesmente.

A idade escancara os olhos como janelas. Noto que um vento assobia, querendo se insinuar nas frestas de meu interior. Eu já me vi castelo inexpugnável. Do adolescente afoito, nasce um homem de esperança cautelosa. Me assumo devassável. Perco o medo de ser frágil. Já não me protejo desse vento que dispersa o pó da vaidade.

Entre desempenho e contemplação, agora prefiro apaziguar os olhos. Ensaio valsar no vai e vem dos acontecimentos. Espalho na alma um bálsamo que sara feridas: o silêncio -as pausas têm poder de cura.

O Eclesiastes avisa: “existe tempo para tudo”. Sim, há tempo, inclusive, de fechar olhos e ouvidos e rumar para o escuro até que o feitiço de Aquiles desapareça. No hiato, anseio ter força de esvaziar falsidades que se travestiam de integridade. Para ter paz preciso da serenidade que o corredor de um mosteiro sugere; e dessa paz, ser sensível para ouvir, inclusive, o lamento de um ribeiro, quando se espreme entre pedras. Entro numa etapa da vida em que prefiro sinfonia suave – um noturno. A violenta rebentação do oceano cede espaço para a sinfonia do regato.

Não mais deixarei que grudem abatimentos e azedumes no coração. Viro ao avesso o bornal dos pedregulhos ásperos. Não desejo carregá-los comigo. As quinas afiadas do passado dolorido pedem esse tempo moroso, que me permite burilar pedras. Cansado de sentir os cardos da desilusão, necessito redescobrir a terapia de passear em jardins – já me contaram de pessoas curadas pela beleza das flores e pelo cheiro da mata.

Ainda tenho tempo para aprender a sentar em cadeiras de balanço. Posso ainda cultivar uma quietude capaz de me coincidir comigo mesmo. Quero me deitar, sereno, como fazia, menino.

Me recuso perder quem eu quero bem. Passo um cadeado na amargura para ter perto de mim quem me dá alegria. Arranco o ufanismo tolo de querer salvar o mundo para salvar os meus amores. Agora sei a importância de proteger as únicas riquezas que restam: meus queridos. Raposas e chacais não destruirão as vinhas e os trigais de onde tiro o vinho e o pão da comunhão. Não permitirei que o território em que protejo o meu rebanho seja destroçado.

Meu passado se tornou longo e o meu futuro, breve. Viverei menos do que já vivi. Pretendo celebrar cada dia com a delicadeza que ele merece. Os anos que me restam serão poucos. Prometo, todavia, que não serão banais.

Soli Deo Gloria


–Ricardo Gondim é escritor e teólogo,  presidente  da Convenção Betesda Brasil.  E-mail: E-mail: [email protected]

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Tópicos: OPINIÃO, RICARDO GONDIM, SOLI DEO GLÓRIA

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