Quando o excesso começa cedo: os sinais e impactos da obesidade infantil no Brasil

Na mochila escolar, ao lado dos livros e cadernos, muitas crianças brasileiras carregam hoje um problema invisível, mas que se torna cada vez mais pesado. Não se trata apenas de escolhas alimentares pontuais, e sim de um padrão que vem se consolidando cedo demais: o excesso de peso na infância. Silenciosa, progressiva e cercada de fatores sociais, culturais e econômicos, a obesidade infantil se tornou um dos maiores desafios de saúde pública.
Os dados não deixam margem para dúvidas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 39 milhões de crianças menores de 5 anos estavam com sobrepeso ou obesidade em 2020. No Brasil, o cenário acompanha essa tendência: cerca de 33% das crianças entre 5 e 9 anos apresentam excesso de peso, de acordo com o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN, 2023). O que antes era exceção, hoje se aproxima perigosamente da regra.
Mas, para além das estatísticas, há histórias e caminhos possíveis. E é nesse ponto que entra o olhar de quem conhece o problema por dentro.
Da experiência pessoal à missão profissional
A trajetória do nutricionista clínico e esportivo Bruno Nascimento Costa começa longe dos consultórios. Ex-obeso, ele transformou a própria vida ao eliminar mais de 30 quilos na fase adulta, um processo que, segundo ele, foi menos sobre restrição e mais sobre reconstrução.
“Eu precisei reaprender a comer. Não foi uma mudança radical de um dia para o outro, foi consistência no básico. E é isso que falta hoje: as pessoas querem soluções rápidas, mas ignoram o que realmente funciona”, diz o especialista.
Formado em Nutrição e com pós-graduação pelo Instituto Líbano nas áreas de Nutrição Esportiva e Obesidade com ênfase em emagrecimento, Bruno construiu sua atuação em um grande princípio: tornar a nutrição possível dentro da vida real.
Seu foco atual é claro e urgente. “A obesidade infantil precisa ser combatida com prioridade. A criança não escolhe sozinha o que come, mas sofre as consequências disso. Se a gente não atua cedo, o problema cresce junto com ela.”
O básico que funciona
Bruno defende uma abordagem mais simples e, segundo ele, mais eficaz. Foi dessa filosofia que nasceu o método próprio de Bruno, o Costa Reset Method, um protocolo de 21 dias baseado em três pilares: diminuição, substituição e reorganização.
A proposta não promete milagres. Pelo contrário: aposta na repetição consciente de hábitos acessíveis.
“A gente não precisa reinventar a alimentação. Precisa organizar. Diminuir o excesso, substituir o que não agrega e reorganizar horários e escolhas. Quando isso vira rotina, o resultado vem”, explica.
A ideia dialoga com um desafio comum entre famílias: a dificuldade de manter mudanças a longo prazo. Em um ambiente onde alimentos ultraprocessados são práticos, baratos e amplamente disponíveis, simplificar pode ser mais estratégico do que radicalizar.
Se a base do trabalho está no simples, a execução acompanha os tempos atuais. Bruno incorporou à sua prática uma assistente de inteligência artificial que acompanha pacientes em tempo integral, oferecendo orientação em situações cotidianas.

Na prática, funciona como um suporte imediato. No supermercado, por exemplo, basta enviar uma foto do rótulo de um produto para receber uma análise alinhada ao objetivo pessoal, seja emagrecimento, performance ou saúde.
O mesmo vale para quem tem rotina corrida. “Se o paciente tem pouco tempo antes de um treino, ele pode informar o que tem em casa e a IA sugere uma refeição adequada. Isso reduz a chance de escolhas impulsivas.”
O uso de ferramentas digitais no cuidado com a saúde já é uma tendência consolidada. Um relatório da consultoria McKinsey (2022) aponta que soluções tecnológicas podem aumentar significativamente a adesão a hábitos saudáveis, especialmente quando oferecem acompanhamento contínuo.
Nutrição que começa na base e no esporte
Além do consultório, Bruno atua diretamente com jovens atletas em clubes de futebol, acompanhando categorias de base do sub-11 ao sub-20. Nesse ambiente, a alimentação ganha um papel ainda mais estratégico.
“A performance começa fora de campo. Um atleta mal alimentado não recupera bem, não rende e aumenta o risco de lesão. E isso vale também para crianças que nem são atletas, a nutrição impacta tudo”, explica.
O contato com esse público reforça sua visão preventiva. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, crianças com obesidade têm até cinco vezes mais chances de se tornarem adultos obesos (SBP, 2022). Ou seja, o problema não desaparece com o tempo, ele se consolida.
“Quando a gente ensina uma criança a se alimentar melhor, não está só melhorando o presente dela. Está mudando o futuro.”
A verdade é que a obesidade infantil não tem uma causa única e, por isso, não terá uma solução isolada. Envolve desde o acesso a alimentos de qualidade até o tempo disponível para preparar refeições, passando pela influência da indústria e pelos hábitos familiares.
Ainda assim, especialistas apontam que mudanças consistentes, mesmo que simples, podem gerar impacto significativo ao longo do tempo.
“A gente não precisa esperar o cenário ideal para começar. Pequenas mudanças, feitas todos os dias, já fazem diferença. O problema é que as pessoas subestimam o poder do básico”, finaliza o especialista.
