Mortes ligadas ao álcool avançam no Tocantins e rins tornam-se vítimas invisíveis
O Tocantins consolidou, entre 2024 e 2025, um dos cenários mais críticos do país quando o assunto é danos à saúde ligados ao álcool. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) mostram que o problema ultrapassa o comportamento social e se transforma em um desafio direto para o sistema de saúde pública, especialmente no que diz respeito à função renal.
O padrão predominante no estado é o binge drinking, caracterizado pelo consumo de cinco ou mais doses em uma única ocasião. Em um ambiente onde as temperaturas frequentemente passam dos 35°C, o corpo já perde líquidos naturalmente. Quando o álcool entra na equação, ele inibe o hormônio antidiurético (ADH), aumentando a eliminação de água pela urina.
Consequentemente, ocorre desidratação. Além disso, o volume de sangue circulante diminui. Com menos fluxo sanguíneo, os rins recebem menos oxigênio e reduzem sua capacidade de filtração. Esse processo pode desencadear lesão renal aguda, principalmente em pessoas com fatores de risco ainda não diagnosticados.

Em 2024, o Tocantins registrou 232,2 internações por 100 mil habitantes relacionadas ao consumo de álcool, índice 18% superior à média nacional. Além disso, o estado apresenta uma das maiores taxas de mortalidade associada ao álcool no país: 41,9 óbitos por 100 mil habitantes.
Esse cenário indica que muitos pacientes chegam ao atendimento médico em estágio avançado. Assim, as chances de reversão diminuem, especialmente fora da chamada “hora de ouro”, período crítico para intervenção eficaz.
Traumas, acidentes e falência renal
O estado também lidera o ranking nacional de “beber e dirigir”, com 31,4% dos motoristas admitindo a prática. Como resultado, os traumas aumentam. Acidentes graves podem provocar rabdomiólise, condição em que o tecido muscular se rompe e libera mioglobina na corrente sanguínea.

Essa proteína é altamente tóxica para os túbulos renais. Portanto, quando grandes quantidades circulam no organismo, o risco de falência renal aguda cresce rapidamente — sobretudo em regiões onde o acesso imediato à hemodiálise enfrenta desafios logísticos.
Cerca de 21,4% da população adulta mantém consumo semanal constante de álcool. Ao longo do tempo, esse hábito contribui para hipertensão arterial. A pressão elevada danifica progressivamente os pequenos vasos renais, reduzindo o número de néfrons — as unidades responsáveis pela filtração do sangue.
Esse processo, chamado nefroesclerose, avança de forma silenciosa. No entanto, quando os sintomas aparecem, parte significativa da função renal já pode estar comprometida de forma irreversível.
Além disso, o uso de anti-inflamatórios para aliviar a ressaca agrava o risco. Esses medicamentos reduzem substâncias essenciais para manter a circulação adequada nos rins durante a desidratação. Dessa forma, a combinação entre álcool e anti-inflamatórios cria um cenário propício para lesões agudas.
Sinais de alerta
Após consumo excessivo de álcool, alguns sintomas exigem avaliação médica imediata:
Redução importante ou ausência de urina
Urina escura, semelhante a chá ou refrigerante de cola
Inchaço em pernas, braços ou rosto
Dor lombar intensa
Náuseas persistentes e confusão mental
O rim possui grande capacidade de adaptação. Contudo, ele não é indestrutível. Cada agressão repetida reduz sua reserva funcional.
Guia de hidratação no calor do Tocantins
No clima local, beber apenas dois litros de água por dia pode ser insuficiente. O cálculo recomendado varia entre 35 ml e 45 ml por quilo de peso corporal. Assim, uma pessoa de 70 kg deve ingerir pelo menos 3,1 litros de água diariamente.
Se houver consumo de álcool, a regra prática é clara: para cada dose ingerida, consumir um copo equivalente de água. Dessa maneira, o volume circulante se mantém mais estável.
Além disso, observar a cor da urina ajuda no monitoramento. Amarelo claro indica hidratação adequada. Amarelo escuro sinaliza alerta. Já a coloração semelhante a chá pode indicar emergência médica.

Em dias de calor intenso ou atividade física, a reposição de eletrólitos também se torna importante. Água de coco ou bebidas isotônicas auxiliam na manutenção do equilíbrio de sódio e potássio, fundamentais para o funcionamento renal.
A Fundação Pró-Rim reforça que prevenção, informação e acompanhamento médico regular são as principais ferramentas para evitar que a doença renal evolua silenciosamente.
No Tocantins, a equação é clara: álcool em excesso, calor extremo e descuido com hidratação formam um risco real para os rins — e os números já mostram que esse impacto não é teórico.
