Como o SUS vai pagar pelo ‘remédio mais caro do mundo’? Entenda a medida
O Sistema Único de Saúde (SUS) deu um passo histórico ao incluir em sua rede um dos medicamentos mais caros e revolucionários do planeta. Trata-se do Zolgensma, terapia gênica indicada para o tratamento da atrofia muscular espinhal (AME), uma doença rara e grave que afeta bebês e crianças pequenas. O remédio, avaliado em cerca de R$ 7 milhões por dose, atua diretamente na causa genética da enfermidade e tem o potencial de mudar o curso da vida de quem o recebe.
A portaria publicada pelo Ministério da Saúde autoriza que hospitais públicos em todo o país sejam habilitados para realizar a infusão da medicação. Inicialmente, o tratamento será oferecido a crianças diagnosticadas com os tipos 1 e 2 da AME, desde que atendam aos critérios clínicos definidos pelos especialistas. O medicamento, que até pouco tempo era acessível apenas por meio de decisões judiciais ou campanhas milionárias de arrecadação, agora passa a ser garantido de forma gratuita pelo SUS.
Com essa decisão, o Brasil se junta a um grupo seleto de países que oferecem terapias gênicas de alta complexidade na rede pública. A medida é vista por especialistas como um marco na história da medicina brasileira, pois representa a entrada definitiva do sistema público na era da genética e da biotecnologia aplicada ao tratamento de doenças raras.

Como o governo vai arcar com o custo do medicamento
A principal dúvida que surge diante dessa novidade é: como o SUS vai pagar por um remédio de R$ 7 milhões? A resposta está em um modelo de financiamento inédito adotado pelo Ministério da Saúde. O governo federal firmou um acordo direto com o laboratório fabricante para reduzir o custo unitário e escalonar os pagamentos conforme o uso. Ou seja, os valores são negociados caso a caso, levando em conta o número de pacientes elegíveis e o impacto clínico do tratamento.
Além disso, a incorporação do Zolgensma foi acompanhada por uma série de análises técnicas da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). O órgão concluiu que, apesar do preço elevado, o medicamento apresenta eficácia comprovada e benefícios duradouros, reduzindo internações, custos hospitalares e complicações a longo prazo. Na prática, o investimento inicial alto pode resultar em economia futura para o sistema público de saúde.
O Ministério da Saúde também prevê o uso de fundos específicos voltados para doenças raras e terapias avançadas. Esses recursos permitirão custear tanto o remédio quanto a infraestrutura necessária para aplicá-lo, já que a infusão requer ambiente controlado e equipe altamente especializada. O objetivo é garantir que o acesso seja seguro, eficiente e equitativo, alcançando pacientes em todas as regiões do país.
Um novo horizonte para pacientes com doenças raras
Para famílias que enfrentam o diagnóstico de AME, o acesso gratuito ao Zolgensma representa uma mudança radical na perspectiva de vida das crianças. A doença, que compromete os neurônios motores e afeta movimentos como andar e respirar, costuma levar à perda precoce de funções vitais. Com a terapia gênica, há chances reais de estabilização e até reversão parcial dos sintomas, permitindo maior autonomia e qualidade de vida.
O coordenador-geral de Doenças Raras do Ministério da Saúde, Natan Monsores, destacou que a habilitação dos hospitais será essencial para descentralizar o acesso ao tratamento. Estados e municípios devem se mobilizar para equipar unidades e capacitar profissionais, garantindo que crianças em diferentes regiões não precisem se deslocar grandes distâncias para receber o medicamento.
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Mais do que uma conquista científica, a incorporação da terapia gênica ao SUS é um símbolo de equidade e avanço social. Ao garantir que um tratamento de milhões de reais chegue gratuitamente a quem precisa, o sistema público reafirma seu papel de oferecer saúde de qualidade a todos, independentemente da condição financeira. O “remédio mais caro do mundo” pode, finalmente, se tornar o mais valioso não pelo preço, mas pela vida que salva.
