Mãe de vítima do césio-137 diz que dor nunca passou após maior acidente radiológico do Brasil
Quase 40 anos após o acidente com césio-137 em Goiânia, a dor ainda marca a vida da família de uma das vítimas. Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide das Neves Ferreira, afirma que nunca conseguiu superar a tragédia.
“Não passa. Tem dia que dói menos, mas continua do mesmo jeito”, desabafou a idosa, hoje com 74 anos, ao relembrar o impacto do acidente em sua vida.
A história voltou ao debate após o lançamento da minissérie Emergência Radioativa, da Netflix, baseada em fatos reais. Segundo Lourdes, a produção ajudou a manter viva a memória da tragédia.

Apesar disso, ela afirma que muitas vítimas enfrentam dificuldades até hoje. Entre os problemas relatados estão solidão, depressão e dependência de medicamentos.
“Tem gente que virou alcoólatra, outros dependem de remédio controlado”, relatou.
Além do sofrimento emocional, Lourdes também enfrenta dificuldades financeiras. Atualmente, ela depende de pensões do governo para sobreviver.
A idosa recebe cerca de R$ 954, mas parte do valor é comprometida com empréstimos. Assim, restam aproximadamente R$ 400 a R$ 500 para despesas básicas.
Diante disso, ela afirma que precisa escolher entre pagar contas ou comprar remédios. Além disso, enfrenta problemas de saúde, como dores na coluna, hipertensão e complicações na visão.

Outro ponto de preocupação é o risco de perder a casa onde mora, devido a dívidas de IPTU.
“Eu só quero ter um final de vida digno”, afirmou.
Enquanto isso, o Governo de Goiás apresentou proposta para reajustar as pensões. O projeto prevê aumento nos valores pagos a vítimas e pessoas envolvidas no atendimento ao acidente.
Relembre o acidente com césio-137
O acidente com césio-137 ocorreu em 1987 e é considerado o maior desastre radiológico do Brasil. Na época, um aparelho de radioterapia abandonado foi aberto, liberando material altamente radioativo.
Sem saber do perigo, diversas pessoas tiveram contato com a substância. Como resultado, houve mortes e centenas de contaminados.

Segundo dados oficiais, quatro pessoas morreram diretamente por causa da exposição. No entanto, os efeitos da tragédia ainda atingem milhares de vítimas.
Atualmente, mais de mil pessoas seguem em acompanhamento médico contínuo. Além disso, toneladas de rejeitos radioativos permanecem armazenadas em depósitos controlados em Abadia de Goiás.
Quem são as vítimas?
De acordo com informações divulgadas pelo Governo de Goiás, na época, um monitoramento realizado no Estádio Olímpico avaliou mais de 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram algum grau de contaminação e 129 necessitaram de acompanhamento médico permanente.
O acidente resultou em quatro vítimas fatais diretas, que faleceram entre quatro e cinco semanas após a exposição devido à Síndrome Aguda da Radiação (SAR):
– Leide das Neves Ferreira: A menina de apenas 6 anos era filha de Ivo Ferreira e foi a pessoa mais afetada por ter brincado com o pó e ingerido partículas. A criança morreu em 23 de outubro de 1987 e foi enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação.
– Maria Gabriela Ferreira: Esposa de Devair e a pessoa responsável por evitar que a contaminação fosse ainda maior, ela adoeceu três dias após o contato e faleceu na mesma data que Leide, em 23 de outubro, aos 37 anos.
– Israel Batista dos Santos: O jovem de 20 anos era funcionário de Devair e trabalhou na remoção do chumbo da fonte. Ele faleceu em 27 de outubro.
– Admilson Alves de Souza: Aos 18 anos, ele também era um funcionário do ferro-velho, que manipulou a fonte radioativa e morreu em 28 de outubro.
