Romance “Terras Submersas” retrata drama de comunidades atingidas por hidrelétrica em Goiás

O romance Terras Submersas, obra de estreia do escritor Lincoln de Barros, expõe o impacto social provocado por grandes obras públicas no Brasil. Publicado pela Editora Mondru, o livro reúne 168 páginas. Além disso, mistura ficção com relatos inspirados em acontecimentos reais.
A narrativa se passa na região da Usina Hidrelétrica de Cana Brava, localizada entre os municípios de Minaçu e Cavalcante. Nesse cenário, a obra retrata a expropriação de comunidades inteiras após o alagamento de áreas para a construção da usina. Além disso, o livro evidencia a negligência enfrentada por moradores e trabalhadores atingidos pelo empreendimento.
Ao longo da narrativa, o autor constrói uma crítica às injustiças sociais pouco visíveis no país. Segundo Lincoln de Barros, a obra aborda uma forma agressiva de expansão econômica recorrente no Brasil. Para ilustrar essa lógica, ele menciona tragédias recentes, como os rompimentos das barragens em Mariana e Brumadinho. Assim, o livro dialoga com episódios reais que marcaram o país.

Ao mesmo tempo, o autor explica que a narrativa parte do ponto de vista das vítimas. Ou seja, a história destaca quem vivenciou diretamente as perdas materiais e simbólicas. Dessa forma, os personagens representam pessoas que ainda enfrentam as consequências da remoção de suas terras.
Livro nasce de experiência profissional do autor
A origem da obra está na trajetória profissional de Lincoln de Barros. O escritor atuou como auditor em um processo relacionado à Usina Hidrelétrica de Cana Brava.
Durante esse trabalho, ele teve acesso a depoimentos, fotografias e registros documentais sobre o reassentamento de moradores. Posteriormente, utilizou esse material como base para desenvolver o romance. Assim, a experiência profissional acabou influenciando diretamente a construção da narrativa.
Dividido em nove capítulos, Terras Submersas começa com a ocupação de uma agência bancária em Brasília. A ação é organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens. Como resultado do protesto, ocorre a realização de uma auditoria social.
Em seguida, consultores viajam até Goiás para investigar as denúncias. No decorrer da apuração, eles se deparam com os impactos humanos provocados pela construção da usina. Além disso, observam o descaso de empresas e órgãos oficiais diante das consequências sociais do empreendimento.
Histórias de perda e resistência
Os capítulos mais marcantes apresentam relatos diretos de moradores atingidos pela barragem. Muitos personagens perderam casas, terras e meios de subsistência. Dessa maneira, a obra destaca a dimensão humana da tragédia.
Com linguagem sensível, Lincoln de Barros descreve o estado emocional dessas pessoas. Ao mesmo tempo, os relatos mostram uma mistura constante de esperança e desesperança. Portanto, o romance revela não apenas perdas materiais, mas também impactos psicológicos profundos.
Segundo o autor, os depoimentos que ouviu durante a auditoria o marcaram profundamente. Por isso, decidiu transformar essas histórias em literatura. Assim, buscou dar visibilidade às experiências de comunidades que raramente aparecem no debate público.

Estreia literária aos 78 anos
Natural de Belo Horizonte, Lincoln de Barros estreia na ficção aos 78 anos. Antes disso, construiu uma trajetória profissional bastante diversa.
Na juventude, trabalhou como balconista de farmácia, motorista de táxi, aprendiz de ator, professor de Filosofia e sindicalista. Posteriormente, concluiu graduação em Filosofia em 1978. No mesmo ano, também obteve especialização em Análise de Sistemas. Mais tarde, concluiu mestrado em Administração Pública, em 1997.
Durante cerca de quatro décadas, atuou no setor de tecnologia da informação e comunicação, principalmente na administração pública. Paralelamente, desenvolveu atividades como consultor em projetos socioeconômicos.
Entre esses trabalhos, participou de iniciativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Em um desses projetos, integrou a equipe responsável pela auditoria social do plano de reassentamento da Usina Hidrelétrica de Cana Brava. Dessa experiência surgiu a inspiração para o romance.
Escrita ganhou força durante a pandemia
A escrita literária entrou definitivamente na vida do autor apenas em 2020. Até então, seus textos se concentravam em produções técnico-políticas e artigos especializados.
Contudo, durante o período de isolamento provocado pela pandemia de COVID-19, ele decidiu se dedicar à literatura. Assim, iniciou o projeto que resultaria no romance Terras Submersas.
Segundo o escritor, ver o livro publicado representa a realização de um sonho antigo. Além disso, simboliza o fechamento de um ciclo pessoal e profissional.
Trecho de “Terras Submersas” (p. 45)
“Olho para ele novamente e o que vejo, de repente, é um ser de duas dimensões, um pequeno proprietário expropriado de seu modo de vida, submisso e indefeso diante da força da ocupação do capital, um senhor maduro, de face e modos rústicos, aparentando ser bem mais velho do que a idade anotada na sua ficha, mas que a imaginação insiste em transportar para a margem de um riacho esperto, sol a pino, os seixos brilhando sob a água cristalina, debruçado girando uma bateia num remanso barrento, recolhendo pequenas faíscas amarelas. Alguém que tem esperança da reconciliação de duas dimensões temporais e sabe ao mesmo tempo de sua impossibilidade. Mais tarde, me vem a imagem forte do irremediável, nas palavras de um velho posseiro, anotadas antes e que ficaram vivas na lembrança. Com voz firme e um forte sotaque nortista, ele falou: nós saímos com a água quase nos joelhos. Noitinha já, não olhei para trás. Quando vi, no outro dia, quando a manhã avermelhou, um grande lago. Não dava mais para saber onde era o quintal, a cerca, o ingazeiro, a casa.”
Ficha técnica
Título: Terras Submersas
Autor: Lincoln de Barros
Editora: Mondru
Páginas: 168
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