Colapso de corrente oceânica pode congelar a Europa e gerar impacto climático global, alerta a Islândia
A Islândia colocou no centro de sua estratégia de segurança nacional um cenário que, até pouco tempo, parecia distante: o colapso da Circulação Meridional do Atlântico (AMOC), sistema oceânico fundamental para o equilíbrio climático do planeta.
A AMOC funciona como uma espécie de esteira transportadora de calor, levando águas quentes dos trópicos em direção ao Atlântico Norte. Esse mecanismo ajuda a manter o clima relativamente ameno no norte da Europa, apesar da elevada latitude. Caso enfraqueça drasticamente ou entre em colapso, o planeta continuaria a aquecer em média, mas partes da Europa poderiam sofrer resfriamento abrupto.
Modelos climáticos indicam que a Islândia poderia enfrentar invernos com temperaturas próximas de -45°C, além da formação de gelo marinho ao redor da ilha — algo que não ocorre desde o início da ocupação humana no território. Diante desse risco, o governo islandês classificou oficialmente o cenário como ameaça à segurança nacional.

O que é a AMOC
A AMOC opera há cerca de 10 mil anos. No Atlântico Norte, águas quentes vindas do sul perdem calor, tornam-se mais densas e afundam, retornando em profundidade para latitudes mais baixas. Esse ciclo regula o clima, influencia regimes de chuva e sustenta ecossistemas marinhos.
Sem esse “aquecimento central” oceânico, Reykjavik, situada no paralelo 64ºN, teria clima semelhante ao de regiões quase inabitadas do Canadá. Além da Europa, a AMOC influencia as monções na África Ocidental, no Sul da Ásia e os padrões de chuva na Amazônia.
Estudos e divergências
Em 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas classificou como “muito improvável” um colapso antes de 2100. Contudo, pesquisas recentes ampliaram o debate.
Estudo publicado em 2024 analisou nove modelos climáticos sob cenários de altas emissões e apontou enfraquecimento significativo da corrente, com possível interrupção no longo prazo. Mesmo em cenários alinhados ao Acordo de Paris, os autores estimaram até 25% de chance de colapso.
O oceanógrafo Stefan Rahmstorf afirma que o risco pode ter sido subestimado. Já instituições como a NOAA e o Met Office apontam que a AMOC vem enfraquecendo desde meados do século 20, segundo dados observacionais.
Por outro lado, parte da comunidade científica defende cautela, sugerindo que mecanismos naturais de estabilização podem tornar o sistema mais resiliente do que indicam alguns modelos.
O papel do aquecimento global
O principal fator associado à instabilidade da AMOC é o aquecimento acelerado do planeta. O derretimento da Groenlândia despeja grandes volumes de água doce no Atlântico Norte, alterando salinidade e densidade — elementos essenciais para o funcionamento da corrente.
Além disso, o aumento da temperatura atmosférica reduz a troca de calor entre oceano e ar, enfraquecendo o mecanismo que impulsiona o afundamento das águas frias e salinas.
Impactos e preparação
Com cerca de 400 mil habitantes, a Islândia depende fortemente da pesca e de condições climáticas relativamente estáveis. Um resfriamento abrupto poderia afetar agricultura, infraestrutura e cadeias produtivas.
Até o momento, o governo não anunciou medidas concretas de adaptação, mas informou que o risco será incorporado ao planejamento nacional até 2028. No debate público, surgem propostas controversas, como investimentos em geoengenharia, técnica que busca reduzir artificialmente a temperatura global.
Especialistas alertam que ignorar sinais precoces pode ampliar os danos. Segundo o pesquisador Halldór Björnsson, do Escritório Meteorológico da Islândia, quando houver certeza absoluta de um colapso, possivelmente já será tarde para evitar consequências severas.
Em um cenário global marcado por eventos extremos, a possibilidade de atingir um ponto de inflexão climático amplia a preocupação internacional. Para a Islândia, acostumada a monitorar vulcões e terremotos, o novo alerta vem das profundezas do oceano.
