Conheça o município do interior, cercado pela natureza, que vive há quase quatro anos sem homicídios
Em meio às montanhas do Caparaó e com ruas onde a pressa não dita o ritmo, Dores do Rio Preto, no Sul do Espírito Santo, acumula um dado raro no cenário da segurança pública: o município está há quase quatro anos sem registrar homicídios.
Com pouco mais de 6,5 mil habitantes, a cidade é conhecida nacionalmente pela produção de cafés especiais e por ser uma das principais portas de acesso ao Pico da Bandeira, o terceiro ponto mais alto do Brasil. No dia a dia, no entanto, o que marca a rotina é a sensação de tranquilidade típica de cidades pequenas.

“Todo mundo se conhece. Aqui a gente anda sem medo”, resume o estudante Bruno Protazio, de 21 anos, morador do distrito de Pedra Menina desde criança.
De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Espírito Santo (Sesp-ES), o último homicídio registrado no município ocorreu em 15 de maio de 2022. Na ocasião, uma briga generalizada terminou com um homem de 38 anos morto após ser esfaqueado. O autor do crime, segundo a Polícia Militar, era um adolescente de 16 anos, que também ficou ferido. Desde então, não houve novos registros de mortes violentas na cidade.
Integração com a polícia e participação da comunidade
O prefeito Tiaguinho Pessotti (PP), em seu primeiro mandato, aponta que o resultado é fruto da integração entre o poder público, as forças de segurança e o perfil da população local.
“Existe um diálogo constante com a polícia, mas o principal fator é o nosso povo. É uma população acolhedora, que mantém a essência do interior. Isso se reflete diretamente nesse cenário de tranquilidade”, afirma.
Segundo o prefeito, há cerca de quatro meses o distrito de Pedra Menina passou a contar com uma companhia da Polícia Militar, ampliando a presença policial em uma das regiões mais visitadas do município.
“Foi um trabalho de diálogo que resultou na implantação do posto da PM, trazendo mais segurança tanto para moradores quanto para quem visita a cidade”, destacou.
Além do policiamento, moradores de Pedra Menina utilizam um grupo de WhatsApp como ferramenta de apoio à segurança. No espaço, são compartilhadas informações sobre situações suspeitas, ocorrências e movimentações fora do comum, facilitando o acionamento da polícia quando necessário.
Turismo cresce, sensação de segurança permanece
Mesmo com o aumento do fluxo turístico nos últimos anos, a percepção de segurança segue intacta entre os moradores. Bruno afirma que o crescimento do turismo não alterou o clima de tranquilidade.

“Mesmo com gente de fora vindo visitar, continua tudo muito calmo. E agora, com mais policiamento, a sensação de segurança aumentou ainda mais”, relata.
A hospitalidade é apontada como uma das marcas do município. “É um lugar muito acolhedor. Quem vem, quase sempre quer voltar”, completa.
Uma das menores cidades do Espírito Santo
Dores do Rio Preto está entre os municípios menos populosos do estado. Segundo o último Censo, ocupa a quarta posição no ranking de menor população do Espírito Santo.
Localizada a cerca de 250 quilômetros de Vitória, a cidade faz divisa com Minas Gerais e compartilha com o estado vizinho o Parque Nacional do Caparaó. A configuração urbana também reflete o perfil interiorano: apenas 1,24 km² do território é urbanizado, o que corresponde a 0,78% da área total do município.
Para efeito de comparação, Vitória possui cerca de 47,5% do território urbanizado, enquanto São Paulo chega a aproximadamente 60%.
Economia baseada no café e no ecoturismo
A economia local é sustentada principalmente pela cafeicultura de montanha e pelo turismo. A produção de cafés especiais do Caparaó ganhou projeção nacional nos últimos anos e impulsionou pequenos produtores. Em 2017, um café produzido no município foi eleito o melhor do Brasil.
O turismo, por sua vez, se intensifica especialmente nos meses mais frios, com a movimentação de pousadas, restaurantes e serviços ligados ao ecoturismo, aproveitando a proximidade com o parque nacional.
Bruno acompanhou de perto essa transformação. “Quando eu era criança, muitas estradas ainda eram de chão. O turismo começou a crescer de uns 15 anos pra cá, e eu vi essa evolução acontecer”, conta.
Segundo ele, a relação da família com o desenvolvimento da região atravessa gerações. “Meu avô ajudou a construir a estrada de acesso ao parque, junto com amigos. Meu pai também tem muitas histórias desse período.”
Hoje, com o acesso asfaltado, a chegada de visitantes se tornou mais fácil, impulsionando cafeterias, pousadas e empreendimentos ligados à natureza.
O município também integra um projeto turístico em desenvolvimento conhecido como Travessia dos 7 Cumes. O percurso, com cerca de 60 quilômetros de trilhas, prevê experiências que incluem hospedagens, cafeterias, restaurantes, piscinas naturais e cachoeiras ao longo do trajeto.
Formação histórica
O povoamento da região teve início no século XIX, a partir da abertura de caminhos que ligavam Minas Gerais ao Espírito Santo. Até 1863, a área pertencia a Minas, quando o Rio Preto passou a definir a divisa entre os dois estados.
O distrito foi criado em 1896 e ganhou impulso com a chegada da estrada de ferro. A emancipação ocorreu apenas em 1963, quando o município passou a se chamar Dores do Rio Preto, em referência à padroeira Nossa Senhora das Dores e ao rio que marca a fronteira entre os estados.
Crimes ainda existem, mas em menor escala
Apesar da ausência de homicídios desde 2022, o município ainda registra ocorrências policiais, principalmente relacionadas a crimes contra o patrimônio.
Entre 2022 e 2025, o painel da Sesp-ES aponta 173 registros de estelionato e fraude. No mesmo período, foram contabilizados 36 furtos em residências e condomínios, 10 furtos em estabelecimentos comerciais e cinco roubos em residências. Também há registros de furtos e roubos a pessoas em via pública, em menor número.
Ainda assim, Dores do Rio Preto figura entre os municípios capixabas com menor volume de crimes patrimoniais. No ranking estadual que reúne dados entre 2022 e 2025, a cidade soma 354 ocorrências, número inferior ao de diversos municípios de porte semelhante e médio no Espírito Santo.
