Protestos no Irã perdem força após repressão com milhares de mortos e apagão da internet, dizem monitoramentos
A intensidade dos protestos no Irã contra o sistema teocrático da República Islâmica diminuiu nos últimos dias, após uma repressão descrita como brutal, com milhares de mortos, e em meio a um apagão prolongado da internet, segundo organizações de monitoramento e entidades de direitos humanos. A avaliação foi divulgada nesta sexta-feira (16), em um cenário de forte presença das forças de segurança nas ruas e crescente preocupação internacional.
A mobilização começou em 28 de dezembro, em Teerã, inicialmente contra o aumento do custo de vida. Em seguida, se espalhou para outras cidades e passou a incorporar a exigência de queda do regime clerical que governa o país desde a Revolução de 1979.
Segundo organizações de defesa dos direitos humanos, o corte de internet imposto pelo governo teria como objetivo reduzir a circulação de informações e dificultar a divulgação do tamanho da repressão. Monitoramentos apontam que os iranianos já estão sem acesso pleno à rede há mais de 180 horas, período superior ao registrado durante as grandes manifestações de 2019.

Na noite de quinta-feira, durante o início de um feriado prolongado de três dias, houve registro de forte presença policial e de segurança nas ruas de Teerã, o que reforça a percepção de que o governo tenta impedir novos atos.
Um instituto internacional que acompanha a crise avaliou que a repressão pode ter sufocado temporariamente o movimento, mas alertou que manter uma mobilização permanente das forças de segurança pode ser insustentável, abrindo margem para uma retomada dos protestos.
Entidades denunciam massacre e número de mortos pode ser maior
A organização Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, estima que pelo menos 3.428 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança. A entidade afirma que o número real pode ser maior.
O diretor da ONG, Mahmood Amiry-Moghaddam, acusou as autoridades lideradas pelo aiatolá Ali Khamenei de terem cometido “um dos crimes mais graves de nossa época” e citou relatos de manifestantes mortos a tiros enquanto tentavam fugir, uso de armamento pesado e execuções em plena rua.
A Human Rights Watch também classificou a repressão como sem precedentes no país e relatou denúncias de massacres durante os confrontos.
Imagens que circulam fora do Irã mostram corpos alinhados em um necrotério ao sul de Teerã e familiares em desespero em busca de desaparecidos. O material reforçou a preocupação internacional com o que estaria ocorrendo no país.
EUA reduzem tom e aliados do Golfo pressionam por cautela
A ameaça de um ataque dos Estados Unidos ao Irã também parece ter diminuído. Segundo um funcionário saudita, aliados do Golfo convenceram o presidente americano Donald Trump a dar “uma oportunidade” a Teerã antes de qualquer ação militar.
De acordo com a informação, Arábia Saudita, Catar e Omã teriam feito esforços diplomáticos de última hora para alertar Trump sobre o risco de graves repercussões regionais caso houvesse uma escalada militar.
Mesmo com o recuo no discurso, a Casa Branca reforçou que “todas as opções seguem sobre a mesa”.
Articulação internacional e reunião na ONU
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, conversou por telefone nesta sexta-feira com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e indicou que pretende falar também com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em uma tentativa de reduzir a tensão envolvendo um aliado de Moscou.
No Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, a jornalista iraniano-americana Masih Alinejad afirmou que os iranianos estariam unidos contra o sistema clerical. Já o representante do Irã acusou Washington de explorar os protestos com fins geopolíticos.
Enquanto isso, os Estados Unidos anunciaram novas sanções econômicas contra autoridades iranianas acusadas de coordenar a repressão, ampliando a pressão diplomática sobre Teerã.
