Jovens reduzem consumo de álcool, mas especialistas alertam para troca por outras drogas
O consumo de álcool entre jovens brasileiros está em queda, mas o movimento não representa, necessariamente, uma mudança para hábitos mais saudáveis. É o que indica uma pesquisa nacional que aponta que parte dessa geração pode estar substituindo a bebida alcoólica por maconha, drogas sintéticas, vapes e outras substâncias, segundo especialistas ouvidos no estudo.
Os dados fazem parte do levantamento “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025”, realizado pela Ipsos-Ipec a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa). De acordo com a pesquisa, 64% dos brasileiros afirmaram não consumir bebidas alcoólicas em 2025, percentual impulsionado principalmente pelos mais jovens.
Na faixa etária de 18 a 24 anos, o índice de abstinência saltou de 46% para 64%, enquanto entre pessoas de 25 a 34 anos houve crescimento de 47% para 61%. Apesar da redução expressiva, especialistas alertam que o fenômeno deve ser analisado com cautela.
Segundo os pesquisadores, em muitos casos, o menor consumo de álcool está associado a uma migração para outras substâncias, algumas delas erroneamente percebidas como menos prejudiciais, como cigarros eletrônicos e produtos à base de nicotina.
Pesquisa nacional e perfil dos entrevistados
O estudo foi realizado entre os dias 4 e 6 de setembro, antes dos recentes episódios de intoxicação por metanol, e ouviu 1.981 pessoas com 18 anos ou mais, por meio de entrevistas presenciais domiciliares em todas as regiões do país. As perguntas abordaram a frequência do consumo de álcool e a percepção individual sobre o hábito de beber.
Entre os entrevistados, 52% eram mulheres, com idade média de 42 anos. Cerca de 43% tinham ensino médio completo, outros 43% residiam na região Sudeste e 62% moravam em cidades do interior. Em relação à renda, 51% pertenciam à classe C.
No recorte religioso, 51% se declararam católicos e 27% evangélicos, enquanto 89% afirmaram ter acesso à internet.
Substituição do álcool preocupa especialistas
Na prática clínica e em relatos de fóruns frequentados por pais e mães de grandes escolas, profissionais de saúde vêm observando um aumento no uso de maconha, drogas sintéticas, vapes, gomas de nicotina e até o crescimento de distúrbios alimentares entre jovens.
Para especialistas, a queda no consumo de álcool, isoladamente, não indica uma relação mais saudável com substâncias psicoativas, mas sim uma mudança de padrão.
Entre os fatores que explicam o afastamento do álcool está o aumento da percepção de risco, especialmente em relação aos impactos na saúde física e mental, no desempenho acadêmico e profissional e até na estética, como ganho de peso, inchaço e redução da disposição para atividades físicas.
Medo de exposição pesa mais que riscos à saúde
Outro ponto relevante é a rejeição crescente à ressaca, à perda de controle e ao risco de comprometer a própria imagem. O receio de “dar vexame”, ser filmado e exposto nas redes sociais ou sofrer consequências na vida profissional pesa mais do que os riscos de longo prazo à saúde, sobretudo entre jovens de 18 a 34 anos.
Questões práticas também influenciam essa decisão, como o medo de dizer algo inadequado, ligar para um ex-parceiro, perder objetos ou dinheiro, beijar outra pessoa estando em um relacionamento ou faltar a compromissos no dia seguinte.
Consumo de álcool entre jovens segue como alerta global
Apesar da queda observada em alguns grupos, o consumo de álcool entre jovens continua sendo uma preocupação mundial. Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em 2024 com base em dados de 2019, apontou que 22% dos adolescentes de 15 a 19 anos consumiam álcool, índice classificado como “inaceitavelmente alto”.
As maiores prevalências foram registradas nas Américas (41,9%) e na Europa (44%), enquanto os menores índices apareceram no Mediterrâneo Oriental, onde fatores culturais e religiosos impõem maior restrição ao consumo.
