Em carta de Natal, jovem morto por leoa revelou sonho de trabalhar e desejo de reencontrar a mãe
Uma carta de Natal escrita por Gerson de Melo Machado, aos 19 anos, ganhou repercussão nas redes sociais nesta terça-feira (16) e trouxe à tona aspectos sensíveis da história de vida do jovem, que morreu após ser atacado por uma leoa no Parque Zoobotânico Arruda Câmara, em João Pessoa, no fim de novembro.
O texto, intitulado “Desejo do Coração”, foi redigido anos antes, durante um período em que Gerson estava internado no Centro Educacional do Adolescente (CEA), na capital paraibana. Nele, o jovem expressa pedidos simples, como felicidade, afeto materno e uma oportunidade de trabalho.

A carta foi divulgada pela conselheira tutelar Verônica Oliveira, que acompanhou Gerson ao longo de parte de sua vida e afirmou ter ficado profundamente tocada com o conteúdo. Segundo ela, o documento foi inicialmente compartilhado por Margarete, professora do CEA, em um grupo de estudos, antes de chegar ao público.
“Ele não pediu nada material, nada fora da realidade. Eram desejos humanos, básicos. Infelizmente, a vida dele foi atravessada por muitas impossibilidades”, escreveu Verônica ao comentar a publicação.
No texto, Gerson relata o sonho de alcançar uma felicidade que dizia nunca ter vivido e menciona o desejo de receber a visita da mãe, em busca de carinho e amor. Ele também fala sobre planos profissionais, afirmando que gostaria de trabalhar como policial florestal ou veterinário — profissões ligadas ao cuidado com a natureza e os animais, pelos quais, segundo a conselheira, ele tinha grande apreço.
A carta também revela o vínculo construído por Gerson dentro das instituições pelas quais passou. Em um dos trechos, o jovem agradece o apoio de professores, agentes, diretores e profissionais do sistema de Justiça que o acompanharam durante o período em que esteve privado de liberdade.
“Agredeço por estar privado de liberdade e ter encontrado conselho da professora Margareth, agentes, professor Tony, diretores Luciana, Marcos da Paz, o advogado, a juíza Antonieta”, escreveu.
Gerson tinha diagnóstico de esquizofrenia e uma trajetória marcada por abandono familiar, passagens por unidades de acolhimento e internações que, segundo relatos, nem sempre tiveram continuidade. Para Verônica Oliveira, muitos dos comportamentos do jovem ao longo dos anos eram, na verdade, tentativas de pedir ajuda.
A morte ocorreu no dia 30 de novembro, quando Gerson escalou um muro de mais de seis metros e ultrapassou as grades de segurança para acessar o recinto dos felinos no Parque Arruda Câmara, conhecido popularmente como Bica. De acordo com a Polícia Civil da Paraíba, ele foi atacado pela leoa Leona e morreu ainda no local.
A divulgação da carta reacendeu debates nas redes sociais sobre saúde mental, abandono institucional e a necessidade de políticas públicas mais efetivas para jovens em situação de vulnerabilidade.
