A tecnologia que te liberta das grandes operadoras de celular
Uma pequena caixa, menor que uma mala de viagem, pode transformar completamente o acesso à internet em regiões afastadas do Brasil. Desenvolvida pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, a novidade reúne dentro de um único equipamento todos os recursos necessários para criar uma rede móvel completa e independente. A ideia é simples, mas poderosa: levar conectividade de qualidade a quem sempre viveu fora do alcance das grandes operadoras.
Batizada de “Conectividade na caixa”, a tecnologia integra antena, distribuição e núcleo de rede em um formato compacto e de fácil instalação. Segundo o professor Luciano Mendes, coordenador do Centro de Competência Embrapii Inatel em Redes 5G e 6G, o sistema permite que qualquer pessoa, empresa ou comunidade tenha sua própria operadora privativa. Com isso, é possível criar redes seguras, estáveis e com desempenho comparável às fornecidas comercialmente.
O alcance é impressionante. No 5G, a cobertura pode chegar a até 10 quilômetros; no 4G, pode atingir 100 quilômetros e atender até cem usuários. As redes privativas podem ser usadas em fazendas, indústrias, escolas, cidades inteligentes ou comunidades isoladas, criando novas possibilidades de inclusão digital e acesso à informação.

Conectividade em qualquer lugar
O projeto do Inatel teve início em 2017 e, após anos de aprimoramento, chegou à etapa final de transferência tecnológica em 2025. Desde então, startups da região de Santa Rita do Sapucaí, como a Trivale e a Furukawa, passaram a desenvolver as versões comerciais do equipamento. A primeira se dedica à tecnologia 5G, com foco em setores como óleo e gás, enquanto a segunda aposta no uso agrícola, levando sinal de internet a propriedades rurais e pequenas comunidades.
Apesar de suas vantagens, a rede privativa tem limitações. Os chips funcionam apenas dentro do raio de cobertura da caixa e há restrições em confirmações de mensagens via SMS. Mesmo assim, a proposta tem se mostrado eficiente para transmissões de dados e chamadas de voz, além de oferecer uma alternativa real às grandes operadoras. Segundo Mendes, o sistema consegue garantir estabilidade e desempenho satisfatórios em praticamente qualquer ambiente.
O principal desafio agora é a liberação do espectro de frequência, controlado pela Anatel. Desde 2023, o uso de redes privativas é permitido no Brasil, mas o processo de autorização ainda é burocrático. Essa lentidão tem freado a expansão da tecnologia, dificultando o avanço de projetos comunitários e o acesso de pequenos provedores a essa solução.
Caminho para o 6G e a inclusão digital
Enquanto a “Conectividade na caixa” começa a ganhar espaço, o Inatel já trabalha em outro projeto ambicioso: a criação de uma tecnologia nacional 6G. Chamada de “TV White Space”, a proposta utiliza faixas de canais de televisão que estão ociosas em áreas rurais para transmitir sinal de internet de forma compartilhada e econômica. Dessa maneira, comunidades podem montar suas próprias redes, sem depender de licitações caras ou infraestrutura complexa.
O instituto já realiza testes em parceria com emissoras de TV, provedores de internet e representantes de diversos setores econômicos. O objetivo é garantir que a inovação seja totalmente adaptada à realidade brasileira, reduzindo custos e ampliando o alcance da rede. Segundo Mendes, o Brasil tem a chance de se tornar pioneiro em uma tecnologia desenvolvida localmente, capaz de diminuir drasticamente a exclusão digital.
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Cerca de 20 milhões de brasileiros ainda vivem em regiões sem acesso à internet. O desafio do Inatel é reduzir esse número com uma solução simples, eficiente e nacional. Dentro de uma caixa cabe o futuro da conectividade: rápido, acessível e livre das amarras das grandes operadoras.
