Teste de R$ 10 criado por cientistas brasileiros detecta metanol e pode evitar mortes por bebidas adulteradas
Com o aumento alarmante dos casos de intoxicação por metanol no Brasil — já são ao menos 127 vítimas — uma inovação desenvolvida no Instituto de Química da Unesp, em Araraquara (SP), volta ao centro das atenções. Criada em 2022, a tecnologia é capaz de identificar a presença do composto tóxico em até 15 minutos, com baixo custo e aplicação simplificada.
A solução, no entanto, nunca chegou ao mercado. Apesar de estar patenteada há três anos, a ausência de interesse comercial impediu que o kit analítico fosse produzido em escala. Agora, em meio à crise sanitária, a ferramenta poderia ter sido um recurso valioso para a prevenção de tragédias.
“Essa negligência custou caro”, lamenta Larissa Alves de Mello Modesto, responsável pela pesquisa. Na época, ela era mestranda da Unesp; hoje, atua como mestre em química e analista de desenvolvimento analítico. “Só agora, diante de um desastre nacional, se percebe a importância do controle do metanol em bebidas”, diz.
Kit barato, rápido e acessível
O kit desenvolvido pela equipe da Unesp foi projetado para detectar a presença de metanol em bebidas alcoólicas como cachaça, vodca e uísque, além de combustíveis como gasolina e etanol. Seu grande diferencial está na agilidade e acessibilidade: enquanto métodos convencionais como a cromatografia gasosa custam em torno de R$ 500 por amostra, o novo teste teria preço estimado de R$ 10.
Além disso, os resultados surgem rapidamente: em 15 minutos para bebidas e etanol, e 25 minutos para gasolina. E o uso não exige formação técnica específica. “Qualquer pessoa com treinamento básico consegue realizar o procedimento com precisão”, afirma Modesto.
Como o teste funciona
A identificação ocorre em dois passos simples:
– Reação química inicial: Um sal é adicionado à amostra. Caso haja metanol, ele se converte em formol.
– Etapa de revelação: A adição de um ácido provoca mudança de cor, revelando a presença da substância.
A mudança de cor indica o nível de contaminação:
– Verde: Seguro, sem presença significativa de metanol.
– Verde amarronzado: Concentração entre 0,1% e 0,4%.
– Marrom: Entre 0,5% e 0,9%.
– Roxo: De 1% a 20%.
– Azul-marinho: Contaminação grave, de 50% a 100%.
Nas bebidas alcoólicas, qualquer sinal de coloração já indica que a amostra está imprópria para consumo, de acordo com os limites legais permitidos.
O teste segue as exigências da norma RDC 166 da Anvisa, garantindo confiabilidade e precisão nos resultados.
Um cuidado necessário é em relação a bebidas com açúcar. “Elas podem gerar uma coloração marrom que interfere na leitura do teste, mas fora isso, o risco de falso positivo é mínimo”, esclarece a pesquisadora.
Alerta ignorado e aplicação prática
O metanol é frequentemente usado de forma criminosa por ser mais barato e isento de impostos, aumentando artificialmente o volume de bebidas e combustíveis. Seu consumo pode causar cegueira e até levar à morte, como já foi registrado em dezenas de casos recentes no país.
Segundo Larissa, o kit seria ideal para uso preventivo em bares, distribuidoras, adegas e organizadores de eventos. “A responsabilidade de servir um produto seguro é de quem o comercializa”, destaca.
A tecnologia, desenvolvida em uma universidade pública do interior de São Paulo, surge como uma alternativa concreta, barata e de fácil adoção, que poderia ter evitado parte dos casos trágicos registrados em 2025. Com a patente ainda disponível, empresas interessadas podem iniciar o processo de transferência diretamente com a Unesp.
