Macron nomeia Sébastien Lecornu como novo primeiro-ministro em meio a impasse no orçamento e risco de protestos
O presidente da França, Emmanuel Macron, nomeou nesta terça-feira (9) o ministro da Defesa, Sébastien Lecornu, como novo primeiro-ministro, com a missão de aprovar o orçamento de 2026 e enfrentar a profunda crise política no país. Aos 39 anos, Lecornu é o quinto chefe de governo desde 2024 e assume o cargo às vésperas de um dia de protestos convocados nas redes sociais sob o lema “Vamos bloquear tudo”.
O Palácio do Eliseu informou que Macron pediu ao novo premiê que consulte as forças políticas representadas no Parlamento para adotar um orçamento e alcançar acordos considerados essenciais para os próximos meses. Os desafios, porém, são enormes: desde as eleições antecipadas de 2024, a Assembleia Nacional permanece fragmentada em três blocos — esquerda, centro-direita e extrema direita — sem maiorias estáveis.
Os dois antecessores de Lecornu, Michel Barnier e François Bayrou, caíram em tentativas frustradas de aprovar o orçamento. A oposição reagiu com ceticismo à nomeação. “O presidente dispara o último cartucho do macronismo”, declarou Marine Le Pen. Já Jean-Luc Mélenchon classificou a decisão como “tragicomédia de desprezo” e voltou a pedir a saída de Macron.

Os socialistas, por sua vez, exigem a suspensão da reforma da Previdência e aumento de impostos sobre grandes fortunas para negociar. O Partido Socialista alertou que, sem medidas de justiça social, fiscal e ambiental, a crise pode se agravar.
Risco de protestos
A transferência de poder entre Bayrou, de 74 anos, e Lecornu ocorrerá na quarta-feira (10), em meio a manifestações que lembram o movimento dos “coletes amarelos” de 2018-2019. O governo anunciou a mobilização de 80 mil policiais para conter protestos que devem atingir empresas, universidades e estradas.
Além disso, sindicatos já convocaram uma greve nacional para 18 de setembro, ampliando o clima de tensão. “Há um cansaço geral. O padrão de vida caiu, e o Estado nos maltrata”, disse à AFP a estudante Rose Tocqueville, em Paris.
Pressão dos mercados
O estopim da crise foi o orçamento para 2026, que previa cortes de € 44 bilhões e a eliminação de dois feriados, proposta que levou à queda de Bayrou. Com déficit de 5,8% do PIB em 2024 e dívida pública de quase 114% do PIB em março — a mais alta da União Europeia, atrás apenas de Grécia e Itália —, a França agora enfrenta o risco de rebaixamento pela agência Fitch, que revisará a classificação do país na sexta-feira (12).
O custo do endividamento francês a 10 anos já ultrapassou o da Itália, reforçando a pressão sobre o novo primeiro-ministro.
