Brasil perde mais de 1 milhão de jumentos e espécie pode ser extinta em 5 anos
O jumento, animal que já foi símbolo do sertão nordestino, está desaparecendo em ritmo acelerado. Nas últimas décadas, mais de um milhão deles foram abatidos em território brasileiro, reduzindo a população de 1,37 milhão para pouco mais de 78 mil. A principal razão dessa queda é a demanda chinesa por colágeno presente logo abaixo da pele desses animais, usado na fabricação de um produto conhecido como ejiao. Essa substância, apesar de não ter eficácia científica comprovada, é altamente valorizada em práticas de medicina tradicional e movimenta bilhões de dólares no mercado internacional.
O problema, segundo especialistas, é que o ritmo de abates é muito maior do que a capacidade de reprodução da espécie. No Brasil, o professor Pierre Barnabé Escodro, da Universidade Federal de Alagoas, alerta que, se nada for feito, o jumento pode desaparecer antes de 2030. A situação é alarmante porque esses animais não têm sido criados para fins de produção, mas sim capturados e abatidos em um modelo considerado extrativista e insustentável. Essa lógica, segundo pesquisadores, compromete qualquer chance de preservação.
No cenário internacional, a crise é ainda mais grave. Países africanos como o Egito praticamente já não possuem mais jumentos em número significativo. Esse desaparecimento em massa mostra que não se trata de uma questão apenas regional, mas de um fenômeno global que ameaça uma espécie que durante séculos esteve diretamente ligada à subsistência de comunidades rurais.

Abates, disputas políticas e impacto econômico
Atualmente, três frigoríficos possuem autorização do Serviço de Inspeção Federal para abater jumentos no Brasil, todos localizados na Bahia. Apesar de a atividade ser regulamentada, organizações de defesa animal denunciam a ausência de rastreabilidade, apontando falhas graves tanto no controle sanitário quanto nas condições de transporte e manejo. Relatórios científicos recentes revelam sinais de inflamação e maus-tratos em animais destinados ao abate, levantando questionamentos sobre a legalidade e a ética da prática.
O debate chegou à esfera política em 2022, quando um projeto de lei tentou proibir o abate em território baiano. No entanto, o parecer do relator foi contrário, defendendo que a prática tem relevância econômica para o Estado e que bastaria fortalecer a fiscalização. A decisão gerou revolta entre ambientalistas e pesquisadores, que argumentam que o desaparecimento da espécie é iminente caso medidas de proteção não sejam aprovadas com urgência. O impasse permanece sem solução definitiva.
Enquanto isso, o valor de mercado da pele do jumento continua a crescer. No interior do Nordeste, animais antes vendidos por valores entre R$ 100 e R$ 150 hoje alcançam até R$ 500, devido à escassez. Já a pele, quando exportada, chega a ser comercializada por até US$ 4 mil a unidade. Esses números explicam o motivo da continuidade do abate, mesmo diante de tantas denúncias e da ameaça de extinção.
Caminhos para salvar a espécie no Brasil
Apesar do cenário crítico, existem alternativas em discussão para tentar reverter a ameaça. Uma delas é a criação de santuários destinados a proteger populações de jumentos em áreas estratégicas. Regiões como Jericoacoara, no Ceará, e Santa Quitéria, que já concentram grande número desses animais, poderiam servir como pontos de conservação e de reprodução controlada, garantindo segurança contra o comércio ilegal.

Outra proposta defendida por pesquisadores é a reintrodução dos jumentos em atividades sociais e econômicas. Alguns projetos discutem seu uso em práticas de agricultura familiar, como ainda acontece em pequenas propriedades rurais da Europa, além de iniciativas terapêuticas chamadas de jumentoterapia. Essa reinserção daria novo valor social ao animal e fortaleceria seu vínculo com comunidades nordestinas.
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Por fim, a mobilização política é apontada como essencial. Projetos de lei que buscam proibir o abate em nível nacional, como o PL 1.973 de 2022, aguardam votação no Congresso. Grupos de proteção animal intensificam campanhas e pressionam parlamentares a acelerar o processo, enquanto organizações internacionais, como a União Africana, já adotaram medidas de moratória em outros países. O futuro da espécie no Brasil, segundo especialistas, depende da combinação entre pressão social, legislação firme e valorização cultural.
