Conheça o engenheiro que ‘brincou com a morte’ ao dizer “Quem vai inaugurar o cemitério?” e acabou sendo o primeiro sepultado
Em 1957, durante a marcação do primeiro cemitério de Brasília, o engenheiro Bernardo Sayão fez uma observação curiosa aos topógrafos que trabalhavam no local: “Quem é que vai inaugurar o cemitério?”. Dois anos depois, o próprio Sayão se tornaria a primeira pessoa sepultada ali – e, por coincidência, o segundo a ser enterrado foi seu motorista, Benedito Segundo, que sofreu um infarto ao receber a notícia da morte do chefe.
Ambos foram enterrados no mesmo dia, simbolicamente “inaugurando” o cemitério da nova capital.

A história é contada pelo historiador Elias Manoel, do Arquivo Público do Distrito Federal, e está registrada no livro Diário de Brasília. A obra relata como Sayão teve um papel fundamental na construção de Brasília, muito antes da chegada do presidente Juscelino Kubitschek (JK).
De estradeiro a símbolo de Brasília
Bernardo Sayão nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de junho de 1901, e se formou engenheiro agrônomo em Belo Horizonte (MG). Com forte atuação na construção de estradas, chegou à região central do país em 1939, atendendo a um pedido do então presidente Getúlio Vargas. Na época, ele assumiu a coordenação da campanha “Marcha para o Oeste”, que visava desenvolver o interior do Brasil e instalou uma Colônia Agrícola na área onde hoje está o Distrito Federal.

Na década de 1950, chegou a ocupar o cargo de vice-governador de Goiás. Ao lado do então governador Juca Ludovico, foi um dos apoiadores do processo de desapropriação das fazendas que dariam lugar à futura capital do país.
O historiador Elias Manoel afirma que foi Sayão quem construiu a pista onde Juscelino Kubitschek pousou pela primeira vez na região, já como presidente da República, em 1956. Também foi ele quem ergueu a primeira cruz na atual Praça do Cruzeiro, onde JK faria sua primeira cerimônia simbólica na capital em obras.
O acidente e o adeus
Em 15 de janeiro de 1959, aos 57 anos, Bernardo Sayão supervisionava as obras da rodovia Belém-Brasília, no estado do Pará. Durante uma das atividades, ele foi atingido por um galho de árvore que despencou sobre a barraca onde estava. Gravemente ferido, chegou a ser colocado em um helicóptero em busca de socorro médico, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu no trajeto.
Seu corpo chegou ao Aeroporto de Brasília na noite seguinte, 16 de janeiro. Naquele momento, o cemitério ainda não estava concluído – havia apenas estacas e vegetação. Jofre Mozart Parada, amigo de Sayão e chefe da equipe de topografia, precisou utilizar máquinas para abrir um caminho por onde o caixão pudesse passar.
O velório ocorreu na Capela Dom Bosco e reuniu uma multidão. Sayão foi sepultado no cemitério que ele mesmo havia visitado dois anos antes — hoje conhecido como Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul.
Em sua homenagem, a estrada onde ocorreu o acidente passou a se chamar Rodovia Bernardo Sayão, um dos principais trechos da Belém-Brasília.
