Cidade brasileira na fronteira com a Venezuela tem 5 vezes mais usuários de Pix do que habitantes
A pequena cidade de Pacaraima, localizada no extremo norte de Roraima, se tornou um fenômeno nacional no uso do Pix. Com pouco mais de 19 mil habitantes, o município registrou uma média mensal de mais de 106 mil usuários da ferramenta de pagamentos instantâneos — o equivalente a uma taxa de adesão de impressionantes 550%.
O dado faz parte de um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que analisou o uso do Pix em todas as regiões do Brasil. O índice de Pacaraima é o maior entre todas as cidades mapeadas, superando com larga margem centros urbanos de grande porte, como Niterói (RJ).

Migração e movimentação econômica intensa explicam os números
Pacaraima é porta de entrada para venezuelanos que cruzam a fronteira em busca de alimentos, medicamentos, trabalho e oportunidades no Brasil. Somente entre janeiro e setembro de 2024, mais de 83 mil venezuelanos ingressaram no país por essa fronteira, enquanto pouco mais de 8 mil retornaram. Esse fluxo diário intenso alimenta o comércio local e explica, em grande parte, a elevada circulação de dinheiro via Pix.
Muitos dos migrantes vivem na cidade ou a visitam com frequência, utilizando o real como principal moeda em transações. Há casos de venezuelanos que vivem do lado de lá da fronteira, em Santa Elena de Uairén, e mesmo assim utilizam o Pix em seu cotidiano.
“Quase não se vê mais dinheiro vivo”
O cabeleireiro venezuelano John Peter, que vive em Pacaraima há dois anos, afirma que 70% dos pagamentos que recebe são feitos por Pix. “Quase não se vê mais dinheiro físico por aqui. Mesmo com problemas de sinal, quase todo mundo tem celular com Pix”, relata.
Já a comerciante brasileira Antônia Florinda, de 70 anos, diz ter “pavor de Pix”. Ela delega o controle financeiro à filha e resiste à mudança, mesmo admitindo que a maioria dos clientes prefere pagar digitalmente.
Conectividade é desafio constante
Apesar da alta adesão, Pacaraima — assim como outras regiões de Roraima — enfrenta problemas estruturais com a conexão à internet. Em 2024, o estado registrou 17 apagões completos no serviço. Em 2025, pelo menos três quedas de conexão já afetaram o funcionamento de bancos, comércio e serviços públicos.
O comerciante Rômulo Sousa destaca que, sem internet, os pagamentos digitais travam. “Quando o sinal cai, a gente volta pro dinheiro em espécie. Isso atrasa as vendas e cria confusão.”

Pix como ferramenta de inclusão financeira
O estudo da FGV também aponta o Pix como um importante instrumento de inclusão financeira em regiões de menor infraestrutura bancária. Em cidades como Pacaraima, onde o uso do Bolívar venezuelano praticamente desapareceu, o real e o Pix ganharam protagonismo no comércio e nas transações cotidianas.
A economista Laura Pacheco, mestre em Data Science pela USP, afirma que o sistema se consolidou justamente onde há menos opções financeiras: “O Pix é simples, rápido, gratuito e universal. Ele virou essencial em locais onde os bancos físicos ou alternativas como cartões são limitados.”
Comparações nacionais
Enquanto Pacaraima lidera com uma taxa de adesão de 550%, cidades como Niterói (RJ) registram 78,2%. A média nacional é de 63%. No recorte por estados, o Distrito Federal lidera com 77,9% de adesão, enquanto o Piauí tem o menor índice, com 54,7%.

