Peso argentino desvaloriza 8,4% após liberação parcial do câmbio
O peso argentino sofreu uma forte desvalorização de 8,4% na abertura dos mercados nesta segunda-feira (14), cotado a 1.190 por dólar, segundo o Banco Nación, após o anúncio do fim parcial dos controles cambiais que vigoravam no país desde 2019. Na sexta-feira (12), a moeda era negociada a 1.097 por dólar. A medida, segundo o governo, visa permitir um câmbio flutuante dentro de uma banda de preços.
A decisão do presidente Javier Milei foi anunciada após o governo obter o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), com a aprovação de um empréstimo de 20 bilhões de dólares (equivalente a R$ 117,4 bilhões na cotação atual). O novo modelo cambial estipula que o dólar poderá variar entre 1.000 e 1.400 pesos, com o Banco Central autorizado a intervir para manter a cotação dentro desses limites.
“O dólar oficial não existe mais, agora há um dólar único, que é o de mercado”, afirmou Milei em entrevista à Rádio El Observador. O fim do chamado “cepo cambial”, que limitava a compra de dólares a 200 por mês para pessoas físicas, era uma das promessas de campanha do presidente.

Impactos imediatos e cautela do mercado
A medida entra em vigor em meio à visita do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que se encontrará com Milei nesta tarde em Buenos Aires, com expectativa de uma declaração conjunta. A liberação do câmbio representa uma mudança estrutural na política econômica do país e gerou reações cautelosas nos mercados.
Santiago Furiase, membro da diretoria do Banco Central argentino, pediu moderação nas expectativas em entrevista ao canal LN+. “É preciso baixar um pouco a expectativa deste primeiro dia. Estamos preparados, mas será um processo. A cotação pode ter uma reação inicial, mas depois caminhará para o piso da banda”, explicou.
Se o dólar atingir o teto da banda (1.400 pesos), a depreciação do peso pode chegar a 30% em relação ao valor anterior à medida.
Mudanças para pessoas físicas e empresas
A partir desta segunda-feira, pessoas físicas estão liberadas para comprar qualquer valor em dólares via operações bancárias e até 100 dólares em espécie por mês. Já pessoas jurídicas só poderão repatriar lucros e enviar dividendos ao exterior a partir de 2026, conforme o novo cronograma do governo.
Nas ruas de Buenos Aires, tradicionalmente movimentadas por cambistas informais, o clima foi de incerteza. Na movimentada rua Florida, conhecida por seu comércio paralelo de divisas, cambistas relataram baixa movimentação nesta manhã. “Todo mundo está esperando para ver o que vai acontecer”, disse um deles à agência AFP, pedindo anonimato.
Inflação ainda preocupa
A inflação, tema central do governo Milei, segue como desafio. Apesar da redução do índice de 211% em 2023 para 118% no acumulado recente, os últimos meses indicaram nova alta: fevereiro registrou 2,4%, enquanto março teve um aumento de 3,7%.
O presidente afirma que a estabilização virá até meados de 2025. “O problema da inflação vai acabar”, declarou Milei, reafirmando a confiança em seu plano de austeridade, que inclui cortes em aposentadorias, educação e saúde.
O governo aposta na estabilidade cambial como âncora de expectativas para controlar os preços. Furiase também minimizou os riscos de pressão inflacionária no curto prazo: “O mercado ainda tem o reflexo de associar alta do dólar à inflação, mas o comportamento deverá se estabilizar”, avaliou.
A adoção do novo regime é vista como um teste decisivo para o projeto econômico de Milei, que enfrentará sua primeira prova nas eleições legislativas de outubro.
