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Reencontro diário com a tortura: ex-preso político revela crueldades do ‘terror branco’ em Taiwan

Mundo — 01/03/2025 - 09:09 Por:  Felipe Frazão

Um senhor franzino, de cabelos brancos algodão, mexe ansiosamente as mãos enquanto recorda, de pé diante de uma plateia estrangeira, os anos mais terríveis de sua vida. Atrás dos óculos de armação fina metálica, ele cerra bem os olhos – e os contrai muito, a ponto de ressaltar as rugas no rosto, como se lembrar daquilo fosse um estorvo. Então, aperta o polegar contra o indicador da mão direita, num movimento de pinça, os move até a ponta dos dedos da mão esquerda, espalmada para baixo. É como se enfiasse uma agulha imaginária sob suas unhas.

Aos 75 anos, Fred Him-San Chin narra com gestos e palavras, em detalhes gráficos acompanhados por expressão de dor no rosto, um dos quatro métodos de tortura a que foi submetido na Taiwan dos anos 1970, quando agentes da repressão comandada pelo então ditador Chiang Kai-shek o capturaram. Dedica a maior parte de seu tempo a isso, há 16 anos, quando engajou-se no movimento de direitos humanos da Ilha Formosa.

Após uma breve introdução sobre o movimento de ex-presos políticos que resgata a história do Terror Branco, um período autoritário de quatro décadas em Taiwan, Fred Chin repete o que faz quase diariamente desde 2011: narrar o que define como “minha história desumana”.

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Foto: Felipe Frazão/Estadão

Em 2009, ele foi provocado a contar das torturas pela primeira vez. Fred Chin relutou, mas quebraria a promessa feita à família anos antes: nunca mais falar sobre o passado. Após insistência de um grupo de estudantes, aceitou dar o primeiro depoimento a eles. Lembrar da crueldade das agressões, físicas e psicológicas, renderia semanas de noites sem dormir, pesadelos e outras perturbações.

A tortura com a agulha enfiada sob as unhas ocorreu como punição, porque tentara se matar três vezes no cárcere. O primeiro intento suicida foi beber o que acreditava ser um frasco com ácido ou produto de limpeza, encontrado sob a pia do banheiro. Ao primeiro gole, percebeu que o líquido era, em verdade, sangue já degradado e fedorento. Depois, tentaria quebrar uma porta de vidro, na expectativa de se retalhar no pescoço com cacos afiados.

Fred Chin detalha a provocação do agente que o torturava: “Ele me disse: ‘Você quer cometer suicídio, não consegue suportar. Por favor, me dê sua mão’. Ele agarrou minha mão, pegou uma grande agulha e a usou para enfiá-la diretamente no canto da unha do meu dedo. Foi muito doloroso. Ele enfiou uma agulha, depois uma segunda, depois uma terceira. Três no total. E quando as duas primeiras entraram, eu desmaiei e caí no chão. Depois de me despertar com água fria, ele me espetou com a terceira agulha e não me soltou, então apertou meus punhos com força. Eu podia ver o sangue escorrendo entre meus dedos. E essa foi a dor mais dolorosa e agonizante da minha vida”.

Todos observam a descrição de tamanha brutalidade em silêncio. Só há uma voz na sala – e a tradução subsequente do mandarim para o espanhol. Tantos anos depois, a narração em primeira pessoa ainda o comove. Ele descreve a cena dentro do ambiente que reproduz uma corte militar, com mobiliário de madeira cor caramelo e a bancada mais alta com a cadeira do juiz ao centro, exatamente como aquela em que foi condenado, de forma fraudulenta, a 12 anos de prisão (1971 a 1983).

O aposentado resgata ainda na memória o momento em que o juiz da corte militar disse que ele deveria estar agradecido por ter recebido um “curto período na prisão” em vez da pena capital.

“Quando soube que ele estava propondo uma sentença de 12 anos de prisão, de repente fiquei com raiva, levantei a mão e disse: ‘Meritíssimo, estou com um problema’. Ele se levantou, apontou para mim e disse: ‘Não te condenamos à morte, você deveria estar muito feliz; Por que você não se sente grato a nós?”, reproduziu o diálogo. “Não posso aceitar isso. Prefiro a pena de morte. Não estou disposto a passar esses doze anos, minha juventude, na prisão. No dia em que estiver livre, ainda serei uma pessoa normal?”

Fred Chin conduz os visitantes para dentro do antigo Edifício Ren-ai, onde funcionou entre 1968 e 1992 o Centro de Detenção da Seção de Lei Marcial do Comando da Guarnição de Taiwan. Caminha à frente de todos, com o corpo curvado e cabeça baixa, como se o tempo não o tivesse liberado de uma postura corriqueira naqueles corredores de paredes brancas e verdes desgastadas.

A iluminação branca dá uma aparência hospitalar a certas alas do Parque Memorial do Terror Branco Jing-Mei, uma unidade do Museu Nacional de Direitos Humanos. Em vez de quartos e leitos, há dezenas de celas lado a lado, camas improvisadas no chão. Uma sala com aparelhos de escuta representa o sistema de monitoramento.

Os ex-presos relatam que havia instrumentos de humilhação no cárcere. Uma sala exibe as algemas e as grossas correntes para os calcanhares, similares às usadas na era da escravidão nas Américas, séculos antes. Uma espécie de escotilha pequena, a centímetros do chão, era usada para entregar a bandeja com comida, como se os carcereiros alimentassem animais. Os presos eram obrigados a se agachar para entrar na cela por uma portinhola de ferro – o que, para eles, remete a uma porta de cachorro.

Algumas celas, com pouco ventilação, tinham paredes acolchoadas para evitar que presos tentassem tirar a própria vida. O prédio de detenção provisória ainda tem o pátio interno, usado para exercícios ao ar livre, e os banheiros precários da época. Andar por ali permite aos visitantes imaginar a rotina prisioneiros políticos, e perceber o lugar onde vidas e histórias foram suprimidas.

O complexo, que abriga um quartel desativado, tem aparência fria – e a garoa de uma tarde de primavera contribui para isso. A atmosfera pesada é reforçada pelas muralhas cinzas. Na entrada, surge o busto de um xiezhi, criatura mitológica chinesa associada à ideia de justiça e de ser capaz de distinguir entre o certo e o errado.

O local servia para julgamentos protocolares, com base em confissões arrancadas sob tortura. O então presidente Chiang Kai-shek revisava as sentenças pessoalmente, até 1956. Quando discordava da pena, o ditador intervia e determinava a pena de morte, rasurando com tinta vermelha sobre o resultado no papel. Foi o destino de Huang Wen-gong, inicialmente condenado a 15 anos de prisão.

Uma ala no segundo piso era destinada à custódia de mulheres. Lá ficou presa Annette Lu, que viria a se eleger vice-presidente taiwanesa para a primeira administração do Partido Democrático Progressista (DPP), entre 2000 e 2008.

Captura e Confissão

Nascido em Ipoh, na Malásia, em 27 de fevereiro de 1949, Fred Chin se mudou para Taiwan em 1967, depois de completar os estudos, a fim de cursar Engenharia Química, na Universidade Cheng Kung, em Tainan. Aos 18 anos, ele diz sonhava em retornar ao país natal e reencontrar a família. Não tinha interesse em atividades políticas.

Para melhorar sua compreensão de chinês, idioma oficial das aulas na universidade, passou a frequentar a biblioteca do Serviço de Informações dos Estados Unidos, uma organização de assistência americana em Taiwan. Em outubro de 1970, uma explosão ocorreira no local, ferindo ao menos três pessoas.

Em 3 de março de 1971, sem nem sequer ter tomado conhecimento da explosão, Fred Chin foi interceptado na rua, quando caminhava de volta para o quarto que alugava numa casa em Tainan. Um homem de meia idade, narra ele, o abordou e perguntou se “conhecia um estudante de nome Him-San Chin?”. “Eu me abalei na hora ao ouvir o nome, pela coincidência de perguntar aquilo para mim. ‘Eu sou Him-San Chin’”, respondeu. Em seguida, o homem disse que um parente dele, de nome Sr. Chai, da Malásia, o procurava e gostaria de se encontrar com ele, em Taipé. Chin não hesitou em aceitar a carona. Pediu para passar em casa para trocar de roupas e tomar um banho. “Não será necessário, você voltará logo”, retrucou o homem. Dentro do carro, o tom mudou.

O suposto emissário de um parente vindo da Malásia era, em verdade, um agente secreto do Birô de Investigação da República da China, braço policial da repressão política em Taiwan. Aos 21 anos, Fred Chin havia sido capturado e raptado. Levado a Taipé, passaria a primeira noite trancado numa casa pequena, que diz jamais poder lembrar onde ficava. As sessões de tortura durariam semanas.

Foi submetido a espancamento e teve o rosto pressionado contra o chão para obrigá-lo a limpar com a língua o próprio sangue empoçado. Os torturadores também injetaram, com um tubo e uma garrafa, água salgada que saía pelos olhos e nariz ou tinha a cabeça enfiada num balde, métodos de “afogamento”.

Foram dias de interrogatórios a respeito de suas atividades, que culminaram em um confissão forjada e forçada, por suposta participação no atentado meses antes, na unidade americana. “Eles queriam que eu escrevesse e assinasse uma confissão, mas eu não sabia o que escrever”, relembra. “Eu queria escrever qualquer coisa para encerrar aquela tortura, mas não sabia nada sobre os fatos.” Chin conta ter sido torturado por alguns dias, de quatro formas distintas, até que um deles ordenou que assinasse um termo dizendo ter planejado a explosão.

“Como conhecia bem o ambiente, tentei inventar uma história sobre como preparei, onde coloquei a bomba, mas eles não ficaram satisfeitos e diziam que eu estava ocultando a verdade. A tortura nunca parava. Estava desgastado fisicamente e debilitado mentalmente. Tentei me matar três vezes”, relata Chin.

Segundo ele, certo dia um agente comentou que ele seria libertado em breve e que poderia retomar os estudos em Tainan, porque outra pessoa havia “assumido” o atentado a bomba. Mas nunca ocorreu. Em vez disso, Chin diz que foi obrigado assinar outra confissão falsa, segundo a qual havia se filiado ao Partido Comunista malaio, aos 16 anos, e fora enviado a Taiwan como elemento subversivo para tentar derrubar o governo do KMT, o partido nacionalista Kuomintang.

Chin escapou da pena de morte. Ele seria condenado na corte militar e ficaria preso por 12 anos, até ser libertado em 1983. Cumpriu a pena no presídio da Ilha Verde – a 33 quilômetros da ilha principal. Os prisioneiros eram enviados para lá depois da sentença. Conviveu com um cachorro com o qual imaginava dividir seus pensamentos.

Nancy Pelosi

Depois que aceitou contar seu caso, Fred Chin começou a se conectar com outros presos políticos da época. Ficou conhecido como “Irmão San” entre eles. Cerca de 20 deles, Fred Chin inclusive, se envolveram nos preparativos oficiais para estabelecer em Taiwan o Museu Nacional dos Direitos Humanos. O trabalho começou em 2011, e o museu foi oficialmente inaugurado em 2018.

Um dos mais jovens, aos 76 anos, ele calcula que ainda estejam vivos cerca de 6.000 vítimas da ditadura taiwanesa, uma das mais longas de seu tempo, muitos dos quais até hoje incapacitados ou com sequelas.

“Ainda dói, mas vale a pena”, conta ele, no livro autobiográfico Enfrentando a Calamidade (Facing the Calamity, em inglês), lançado em 2020. “Na primeira tentativa, quando entrei no centro de detenção, um sentimento de medo invadiu meu coração. Hoje sinto orgulho de ter contribuído desde o começo.”

Ele calcula já ter contado a própria história a visitantes mais de 1 mil vezes, a diferentes públicos. Ele relata que os medos interiores e a pressão psicológica negativa se esvaíram gradualmente. Enxerga como um dever a tarefa de compartilhar seu testemunho. “Foi como uma terapia bem sucedida para o trauma e hoje me sinto confiante.”

Em 2 agosto de 2022, Chin guiou no antigo cárcere a visita da então presidente da Câmara dos Estados Unidos, a democrata Nancy Pelosi. A viagem dela a Taipé enfureceu Pequim e serviu de gatilho para uma série de exercícios militares intimidatórios, pelo mar e pelo ar, ao redor da Ilha Formosa. Mas aumentou a popularidade e a procura por visitação ao museu.

“Suas percepções e perspectivas como nosso guia foram significativas e muito apreciadas”, agradeceu Nancy Pelosi, em carta enviada a Fred Chin.

“A visita dela afetou minha atitude perante a vida. Fiquei impressionado que aos 82 anos (idade à época) ela estava determinada a sacrificar seu tempo para apoiar firmemente e promover os direitos humanos. Sabíamos que a visita poderia provocar a China, mas penso que foi muito significativa”, comentou Chin, em seu livro de memórias.

Reparação

Num território insular que tenta preservar sua autonomia, teme pela própria existência no futuro e busca reconhecimento internacional como país, Fred Chin busca resgatar a história de um período de tirania, do qual Taiwan guarda escassos documentos e registros públicos. Quer levar sua história sobretudo à juventude que já nasceu no regime aberto, para que entendam o que ocorreu no passado e valorizem os direitos de que desfrutam.

Taiwan se apresenta como farol da liberdade na Ásia, em contraste com a China continental, mas teve um passado sombrio apenas parcialmente revelado. A quantidade de vítimas da repressão é ainda incerta. Chin e seu grupo estimam entre 14 mil e 16 mil pessoas, das quais 2.000 teriam sido executadas.

Arquivos do governo revelam que 1.153 pessoas foram condenadas à morte durante o Terror Branco. Chiang Kai-shek interveio pessoalmente na sentença de 970 pessoas para condenar 259 delas à pena capital. O enorme aparato e a concentração de poder levaram à prisão arbitrária de 21.257 indivíduos, por razões políticas.

Embora tenha durado mais de quatro décadas no século passado, uma das mais longevas leis marciais de seu tempo, somente nos anos 2000 o governo começou a buscar de fato o passado, a partir da redemocratização e da alternância no poder.

Para ele, o movimento pela revisão histórica não pode se converter na busca por vingança. Tampouco em plataforma para dividir a população politicamente. Chin admite que a crença de que “Chiang Kai-shek representa a prosperidade e a felicidade do povo taiwanês” persiste entre pessoas de diferentes gerações, que defendem a manutenção das homenagens. “Não queremos guerra, não queremos sacrificar ninguém”, afirma.

Sobreviventes da repressão estatal querem mais do que denunciar ao mundo as violações de direitos humanos em Taiwan. Exigem que não se repita.

Quem deve ser responsabilizado? Por que houve tantos mortos? Por que nos trataram de forma tão cruel? São algumas das perguntas que os movem.

Eles integram o movimento de pressão sobre o governo para acelerar o processo de retirada dos chamados símbolos de veneração ao autoritarismo. A derrubada deveria atingir qualquer símbolo do ex-ditador e pede ainda que sejam trocados nomes de ruas, escolas e universidades. “Esses objetos devem ser eleiminados”, diz Chin, sobre a iniciativa que divide a sociedade.

“Acho excelente remover todas as estátuas se possível. Mas não devemos usar isso como uma forma de vingança, especialmente a grande estátua no Salão Nacional Memorial Chiang Kai-shek. Toda vez que eu entrava naquele grande salão, eu sentia um tipo de pressão na cabeça, vindo de cima”, relata Fred Chin.

“Ele deveria ser responsabilizado por todo o período do terror, era o líder do governo naquele momento. Como faleceu, não temos intenção de puni-lo ou de nos vingar contra ele. Espero que ele seja responsabilizado, para encerrar os conflitos entre os cidadãos locais. Espero que os partidos e os militantes ideológicos não usem um incidente desses para criar conflito. Não estamos procurando controvérsia. Queremos a paz dentro desta ilha. Devemos resistir a quaisquer desafios vindos de fora, do outro lado do Estreito. Espero que todos os taiwaneses se unam com um só coração para lutar pela soberania de Taiwan.”

Memorial

Indagado sobre o destino do Salão Memorial, o ex-preso político diz não ter esperanças de que o atual governo remova a grande estátua de dentro. Ele compartilha uma visão crítica sobre o andamento do processo e considera complicado avançar no meio militar. “Não espero nada, mas continuaremos a pressionar o governo. O Exército quer manter as estátuas nos quartéis. Será muito difícil remover qualquer estátua no campo militar”, disse ao Estadão.

Para o aposentado, desde que o governo do DPP chegou ao poder em 2016 com promessas de solução rápida e efetiva, mas os resultados ficaram aquém do esperado. Embora reconheça avanços com a criação dos museus e da Comissão de Justiça Transicional, desconfia que o partido governante mantenha “alguns compromissos velados com o KMT”.

Ele se sente aflito pela perda dos camaradas, um a um, ao longo dos anos, por não saber se conseguiram realizar seus desejos após desperdiçarem parte da vida atrás das grades.

Ao completar 76 anos nesta quinta-feira, Chin continua em busca de verdade e de reparação, com mais perguntas do que respostas.

“Lamentavelmente nunca houve culpados, nunca nos explicaram nem pediram desculpas”, reclama ele. “Esperamos que possamos revelar um pouco da verdade sobre o que aconteceu nesta terra para que as pessoas possam compreender quem deve assumir a responsabilidade e por que tantas pessoas foram mortas e feridas.”

Ao fim da visita, na recepção do museu, a família o aguardava. A mulher, três filhos e netos distribuem a biografia dele aos visitantes. Nela está um trecho crucial para entender sua busca:

“Superei meus sofrimentos e aprecio meu trabalho voluntário como testemunha. Meu último desejo é poder descobrir a verdade: por que e como virei suspeito e alvo, bem no começo de tudo”, escreveu no livro.

Aos visitantes, ele compartilhou um apelo. “Espero que estas dores não sejam tratadas de forma injusta na nossa sociedade,no futuro. Estou aqui hoje, contendo a dor e o trauma no meu coração, relembrando a dor do passado, para lhes dizer que o nosso mundo deveria ser um mundo de paz, liberdade e felicidade, em vez de causar dor e trauma a muitas pessoas por causa de algumas ações individuais. Esta é a minha última esperança.”

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Tópicos: TAIWAN, TORTURADO

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