Guerrilheiros armados controlam o Catatumbo em meio a crise humanitária na Colômbia
Encapuzados e armados, guerrilheiros patrulham em motocicletas as estradas de terra da região de Catatumbo, na Colômbia, fronteira com a Venezuela. Nesta área isolada, o controle estatal é praticamente inexistente, permitindo que insurgentes consolidem sua própria lei em um território marcado pela violência e pelo narcotráfico.
A AFP entrou no local uma semana após um ataque do Exército de Libertação Nacional (ELN) que resultou em uma crise humanitária sem precedentes. O episódio deixou mais de 80 mortos, 36 mil deslocados e milhares confinados. A ação brutal incluiu perseguições com “listas em mãos”, onde vítimas foram acusadas de colaborar com dissidências das extintas Farc, rivais no controle do território.

A região sob domínio guerrilheiro
Os guerrilheiros do ELN multiplicaram postos de controle nas estradas, bloqueando o avanço das forças estatais e de dissidentes. O Catatumbo, área estratégica por abrigar plantações de coca, mineração de carvão e o principal oleoduto do país, tornou-se um palco de disputas entre grupos armados.
Apesar das ordens do presidente colombiano, Gustavo Petro, para retomar o controle, os sinais de presença do Estado são mínimos. Carros circulam com bandeiras brancas em um apelo por proteção e paz, enquanto os moradores temem as represálias.
Civis sob fogo cruzado
Luz Franco, comerciante local, descreveu o caos do dia 16 de janeiro, quando os guerrilheiros invadiram sua aldeia. “Toda a aldeia se trancou, todos corriam procurando abrigo”, relatou. A tensão entre o ELN e dissidências que rejeitaram o acordo de paz de 2016 já era perceptível, mas o ataque foi inesperado e devastador.
O ELN mobilizou centenas de combatentes de forma silenciosa, cruzando o departamento de Arauca até chegar ao Catatumbo. A ofensiva não poupou ninguém: entre as vítimas estavam crianças, um bebê e até signatários do acordo de paz, acusados de colaborar com os dissidentes.
Consequências esperanças
A crise evidenciou as falhas do governo em garantir segurança e desenvolvimento em áreas vulneráveis. Moradores como Édgar Guerrero, líder comunitário de El Aserrío, expressam frustração com as promessas não cumpridas do governo Petro. “Essa região deveria ser uma prioridade no processo de paz”, disse.
Enquanto as forças rebeldes mantêm o controle, o ELN celebra seus 60 anos de existência espalhando cartazes, e os dissidentes exibem imagens de figuras revolucionárias como Che Guevara. A incerteza domina a população, que teme represálias iminentes.
Mesmo assim, há esforços pela paz. Crianças da comunidade La Cecilia pintaram uma faixa com os dizeres “QUEREMOS PAZ”, que agora tremula em meio às montanhas. A mensagem, simples, reflete o desejo de muitos, mas a realidade aponta para um conflito ainda longe de terminar.
