Foram apenas 33 dias de trabalho de Mano Menezes no Corinthians sob a gestão de Augusto Melo, algo que o técnico ressaltou logo no início de seu único pronunciamento até aqui após ter sido demitido. Por trás da menção e do curto período de parceria, há alguns episódios de desgaste na relação do treinador com seus agora ex-superiores, segundo apurou a ESPN.

Mano, vale lembrar, foi contratado em setembro de 2023, ainda com Duílio Monteiro Alves como presidente, meses antes das eleições no clube e às vésperas do jogo de volta da semifinal da CONMEBOL Sul-Americana contra o Fortaleza – acabou eliminado. Sua maior missão seria reformular o time para a próxima temporada, desafio aceito sob pedido de contrato longo e multa alta.

Duílio, mesmo com o risco da troca de comando para 2024, como aconteceu nas eleições, aceitou as exigências de Mano, o que agora fará com que o Corinthians tenha que arcar com o pagamento de pouco mais de R$ 9 milhões ao técnico para formalizar a rescisão contratual – sem o acerto entre as partes, o clube não poderá inscrever um novo treinador no Campeonato Paulista.

Eleito, Augusto teve o primeiro encontro com Mano ainda no final do último ano, iniciando o processo de transição presidencial. Alinharam questões como o futuro de jogadores que estavam em fim de contrato. O técnico não colocou empecilhos para saídas, mas fez o alerta que seriam necessárias contratações na mesma escala – tanto em qualidade, quanto quantidade.

Nem todos nomes que acabaram saindo foram consensuais entre comissão técnica e direção. Mano, por exemplo, pediu a renovação de Giuliano, que acabou indo para o Santos, rival alvinegro nesta quarta-feira (7). Não fez objeções, por outro lado, à saída de Renato Augusto, hoje no Fluminense.

As visões de Mano e de Augusto Melo e Rubens Gomes (o Rubão, diretor de futebol do Corinthians) se mostraram mais distantes já em 2024, no processo de montagem do elenco. O técnico indicou nomes à diretoria com os “pés no chão”, como foi o caso de Raniele. Erick, do Athletico-PR; Caio Alexandre, que acabou no Bahia; e Bruno Rodrigues, que foi para o Palmeiras, foram outros.

O início de mandato de Augusto, no entanto, foi marcado pela busca por Gabigol, do Flamengo, em negociação que acabou sem acerto e que Mano e seu estafe entendem que tomou tempo demais do clube. Foi também a isso que o treinador se referiu quando citou os “sonhos” da diretoria em uma de suas últimas entrevistas coletivas, após derrota para o São Paulo.

Entre Augusto e Rubão, Mano construiu melhor relação com o primeiro. Teve abertura com o presidente, por exemplo, para fazer alertas sobre o dia a dia no CT Joaquim Grava. O principal deles foi de que o local precisava de número menor de pessoas circulando, principalmente algumas de “fora do futebol” no início para evitar desconfortos no trabalho.

A chegada de Fabinho Soldado como executivo de futebol foi bem vista nesse sentido, e o ex-profissional do Flamengo também fez alertas a Augusto e Rubão sobre o discurso adotado na imprensa. O entendimento era de que declarações sobre o Corinthians brigando por títulos, neste momento, estavam fora da realidade e mais atrapalhavam do que fortaleciam o elenco.

Mano não gostou nada, por exemplo, quando na última semana vazou vídeo de Augusto em sua sala presidencial no Parque São Jorge falando que, se o Corinthians passasse da primeira fase do Campeonato Paulista, “ninguém segura”. Citou também que o clube estava próximo de contratar um “meia de 1,90m” – que seria Hernani, do Parma, com quem não houve acerto.

Além do mercado, o técnico também não esteve totalmente satisfeito com o que tinha em mãos para trabalhar. Lucas Veríssimo, por exemplo, fez a pré-temporada como titular e deixou o clube às vésperas da estreia no Paulistão; Rodrigo Garro, uma das principais contratações até aqui, não havia sido regularizado; e Matheuzinho, liberado para treinar, acabou voltando ao Flamengo.

Do que teve à disposição, e chegou a escalar neste início de Estadual, Mano não tinha plena confiança no futebol de Fausto Vera e Matías Rojas. Ambos, inclusive, acabaram barrados do time titular na última partida do técnico, na derrota contra o Novorizontino.

A dupla recebeu o voto de confiança de Augusto e Rubão no início da temporada, também pelo contexto de suas contratações: Vera foi uma das grandes apostas da gestão Duílio, e o Corinthians entende que precisa ao menos recuperar o alto investimento; e Rojas teve pendências salariais resolvidas pela nova gestão, algo que quase gerou processo na Fifa.

A avaliação de Mano, contudo, é que nenhum dos dois correspondeu em campo para justificar a aposta, e o técnico já buscava alternativas para armar seu time sem eles.

Agora, sem Mano, o Corinthians procura um novo profissional para comandar a equipe. Precisa também acertar com o técnico a forma de pagamento da multa rescisória. No ano, o desempenho alvinegro com o treinador foi de apenas uma vitória e quatro derrotas em cinco jogos.