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Zago: “Quem sabe não é a hora para a Bolívia?”

Esportes — 18/01/2024 - 16:03 / Atualizado em: 18/01/2024 · 16:08 Por:  FIFA

No alto dos Andes, a 3.640 metros, o teleférico funciona como transporte público para La Paz, além da oportunidade para os passageiros mirarem uma paisagem magnífica. Antônio Carlos Zago, 54, se acostumou a usá-lo, conhecendo cada vez mais a capital boliviana. Às vezes o destino do passeio pode ser a feira “El Alto”, uma das maiores do mundo – senão a maior, onde se pode comprar pneus para tratores ou compostos medicinais para diversas moléstias.

“Quando estou lá, fico no meio da gente. Sempre fui uma pessoa muito direta, simples. O boliviano gosta disso”, diz o brasileiro técnico da seleção boliviana à FIFA.

Foto: FIFA

O zagueiro que já brilhou com as camisas da Seleção e de São Paulo, Palmeiras e Roma virou técnico em 2009, tendo cursado na Europa e na América do Sul. O treinador Zago chegou à Bolívia em 2021 para comandar o Bolivar, um dos times que fazem parte da rede global do Grupo City. Foi campeão do Apertura em 2022, teve 71% de aproveitamento em 75 partidas e deixou sua marca.

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Foto: FIFA

Menos de dois anos depois, veio o convite para dirigir a Bolívia, após quatro derrotas nos quatro primeiros jogos pelas eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 26™. Quer dizer: para tentar uma classificação, a equipe precisa escalar mais uma montanha, em ritmo mais acelerado que o de teleférico.

Zago assumiu a tarefa de peito aberto. Para ele, era o que qualquer boliviano deveria fazer: encarar o desafio e mostrar que é possível. Nos primeiros dois jogos, a Bolívia venceu o Peru por 2 a 0 em casa e depois perdeu, fora, para o Uruguai por 3 a 0.

As eliminatórias para a Copa hoje rendem seis vagas diretas e dão ao sétimo colocado a chance de disputar uma repescagem mundial. Para ele, é factível pensar num retorno ao torneio, algo que não acontece desde 1994. No momento a seleção está em nono, a quatro pontos do Brasil, sexto colocado, e a dois do Paraguai, o sétimo.

Foto: FIFA

FIFA: Você teve uma ótima passagem pelo Bolivar. Como foi receber essa oferta da seleção? Zago: Bom, acho que o trabalho foi bem feito, não só não só profissionalmente, como também no relacionamento com o povo boliviano. Mas lógico que passa pelo que fizemos no Bolívar. Foi praticamente um período de reestruturação, de dar oportunidades a jovens jogadores. Hoje, dos jogadores que começaram, que praticamente eu coloquei para jogar há dois anos no Bolívar, nós temos sete, oito na seleção. Porém, te juro também que não esperava tão cedo um convite. Poder defender o país com que você se identifica bastante é motivo de orgulho.

Por ter treinado o Bolivar, você tem amplo conhecimento sobre os jogadores à sua disposição. Como tem sido esse início de trabalho? Quais metas estabeleceu?

O bom é isso. Não caí de paraquedas. Eu sempre falei que o jogador boliviano tem uma boa técnica. Só falta ter um pouco mais de confiança. Mas também já disse que o jogador boliviano pode ser um pouco mais sofrido que os outros. Você pode ser duro com o jogador, mas tem que dar um certo carinho também. É assim meu relacionamento com eles. E acho que a gente não pode esconder de ninguém também que, em La Paz, a gente tem que afogar o adversário. E aí vamos sair fora tentando alguma coisa diferente e tentar aproveitar.

Foto: FIFA

Acredito que fizemos isso no primeiro jogo. Conseguimos essa vitória em casa, que era o que tínhamos planejado. Contra o Uruguai… Temos que ser sempre otimistas, tem que sempre buscar a vitória. É o que estamos procurando fazer, mudar um pouco a cabeça do jogador boliviano para que, quando vá jogar fora, mantenha a concentração, a mesma intensidade de quando jogamos em casa. Mas, contra o Uruguai, era um jogo num outro nível. O Uruguai hoje é o melhor time da América do Sul, na minha opinião, e mesmo assim a gente fez um bom jogo.

Gosto que meus times sempre procurem jogar futebol. É dessa maneira que eu procurava jogar no Bolívar também. A intenção é colocar um pouco mais de velocidade, mas ao mesmo tempo trabalhar os jogadores tecnicamente.

Sua convocação envolveu diferentes gerações. Sua ideia é montar um time o mais competitivo possível, ou tocar um projeto que repercuta no futuro?

Eu tenho contrato até o final das eliminatórias. Se nos classificarmos, tem uma renovação automática. Estamos pensando no agora, nos próximos dois anos, e aí acho que tem que ser uma mescla, porque nós temos jogadores com idade para chegar no próximo Mundial, sendo praticamente a última chance deles. São jogadores que exercem liderança dentro dos clubes e da seleção.

Temos jovens também com vontade de aprender. Não adianta você ter só jogadores jovens, e o cara não querer crescer. Já teve muito disso do boliviano, de se contentar com pouco. E é isso que a gente está tentando mudar na cabeça dos jogadores para não ficar pensando só dentro do Campeonato Boliviano, para sonhar em futuramente jogar fora. Vamos tentar fazer de tudo para conseguir essa classificação. São 30 anos que a Bolívia não disputa o Mundial, e quem sabe a gente consegue isso?

Foto: FIFA

O que você poderia falar sobre o Miguelito, que joga na base do Santos, com destaque num clube de base tão prestigiada. Um caso raro, pensando nesse intercâmbio.

Eu acredito que o Miguel é um dos melhores jogadores que nós temos nesse momento, e não só dentro da sua idade. Acho que já são praticamente quatro, cinco anos que ele já está no Santos, cinco anos, então ele já teve uma base toda dentro de um dos melhores formadores do futebol brasileiro. Isso é importante. Ele teve a oportunidade de começar o jogo contra o Peru, sentiu um pouco a altura, pois no Santos ele joga literalmente no nível do mar. Ele chegou em La Paz, ficou alguns dias e já jogou. A gente conta muito com ele.

Foto: FIFA

Você falou sobre a altitude. Você teve a experiência de jogar pela Seleção contra a Bolívia em La Paz?

Curiosamente, eu não joguei, mas estava naquele jogo de 1993, que o Brasil perdeu por 2 a 0. Eu estava no banco. Foi nossa primeira derrota na história pelas eliminatórias. No Brasil choveram críticas, parecia o fim do mundo. Nós fomos para Bolívia já pressionados porque havíamos empatado com o Equador na estreia. E acabamos sofrendo uma derrota em La Paz para uma das melhores seleções que a Bolívia teve em sua história.

O estádio estava lotado, tinha todo um clima para isso. Além da altitude. Foi um jogo em que praticamente deu tudo errado para nós. Teve aquele gol que veio de um cruzamento, em que o Taffarel tenta cortar um cruzamento, mas a bola bate na perna dele e entra. Depois do jogo, teve uma pressão muito grande até para a saída do Parreira. Houve uma união muito grande dos jogadores naquele momento em torno dele. Isso fez com que a gente desse a volta por cima. E aí depois chegou nosso salvador Romário.

Foto: FIFA

Qual sua análise das eliminatórias atuais? A Argentina lidera, mas perdeu o Uruguai, que você acabou de dizer que joga o melhor futebol do continente. Depois temos um pelotão embolado, incluindo até o Brasil.

Vejo separados a Argentina, o Uruguai, o Brasil — mesmo nessa situação que se encontra – e talvez a Colômbia. Com o Equador, às vezes dá para brigar ainda, pois eles têm um sobe-e-desce, mas estão ali. Então nós temos aí cinco seleções que praticamente já têm vaga para o Mundial. Sobra uma vaga e meia, ou duas vagas e meia. É o que a gente espera. É poder brigar por uma dessas vagas. E a nossa briga é com o Paraguai, que não vem bem. Chile também, que não está bem nas eliminatórias. A Venezuela, por mais que esteja aí na frente, é uma equipe que dá para brigar também. Acredito que com 19 a 21 pontos, a gente consegue uma sexta colocação, quem sabe uma repescagem, que não é fácil também. Mas é nosso objetivo.

Como você encara o fato de ser o único brasileiro treinando uma outra seleção do continente, diante de um cenário de domínio argentino?

Acho que principalmente na América do Sul faltou a gente plantar essa semente no passado. Não plantamos e não estamos colhendo agora. Queira ou não, os argentinos praticamente dominam o mercado sul-americano. Estão também até nos Estados Unidos. Acredito que isso vem devido ao curso da AFA, que eles fazem há muito tempo. Isso aí sempre foi bem visto pelos clubes de fora. Nós não tínhamos dentro do futebol brasileiro um curso que pudesse se comparar ao da AFA. Agora isso está mudando. Nosso curso melhorou bastante. Tanto que parei um pouco para poder vir estudar, ver alguma coisa diferente. Essa foi a semente que faltou plantar no passado. Meu pensamento aqui é fazer o melhor e tentar essa tão sonhada vaga para o próximo Mundial. Aí acredito que vou abrir portas para os outros brasileiros também.

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Tópicos: FIFAGATE, SOCIETY, ZAGO

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